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Santo de casca de melancia

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Esta história é velha e bem conhecida, era contada por meu pai, Olímpio de Amorim, sertanejo da Vila da Pedra, como era chamada antes de virar Delmiro Gouveia. Seu Antônio Imaginário, que morava naquelas redondezas, fazia qualquer tipo de santo, fosse de madeira ou gesso. Mas o povo, sempre pechincheiro, só queria santo barato. Era o momento que Seu Antônio, já acostumado com a freguesia, exclamava: ?Barato, só se for de casca de melancia?. ?Então faça! Por esse preço pode fazer?. E Seu Antônio não poupava esforço de esculpir a imagem solicitada na casca da melancia, ainda verde, com todo o capricho. Quando o freguês voltava ele entregava o santo, recebia o dinheiro e o freguês ia embora. Uma semana depois estava o cabra voltando, reclamando que o santo tinha se envergado pra frente. Era então que Seu Antônio, de forma bem jocosa dizia: ?O senhor não queria um santo barato? Eu disse que barato só se fosse de casca de melancia. E então o senhor mandou fazer. Pronto. Está feito. Santo barato é isso mesmo?. Esta lição de meu pai serve muito bem para ilustrar os dias de hoje, onde a qualidade deu preferência à quantidade em todos os sentidos. Vivemos a era das semelhanças. É muito parecido, quase igual e tem pouca diferença. Com essa filosofia o sujeito vai comprando e logo mais tem um bocado de coisa para jogar no lixo. O mais interessante é que o freguês, na busca do precinho, grita: ?Isso é um roubo, eu vi ali na esquina por cinquenta por cento mais barato?. E vai comprar o Santo de Casca de Melancia. Observe, leitor, que quando você encontra um médico que escuta você, lhe apalpa, ausculta, anota, examina e torna a perguntar, é uma raridade. O tempo é curto demais, o consultório é cheio e você é mais um. Rapidinho! Rapidinho! Passa o cartão e vai embora. Isso é santo de casca de melancia. Tem gente que anda até com uma plaquinha: ?eu sou santo de casca de melancia?. E você nem olha pra isso, compra o serviço porque é barato. Tem gente que você leva pra sua casa, faz amizade, ouve muita conversa fiada, até descobrir que se trata de um santo de casca de melancia e cedo ou tarde vai envergar. De forma inversa, há muitos políticos que são verdadeiros santos de casca de melancia, mas geralmente são vendidos com um preço tão alto que ninguém desconfia. E, pior, só envergam depois que se elegem. A essa altura não dá mais para descartar e você fica no prejuízo.

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