Opinião
No improviso
O ministro da Educação, Rossieli Soares, fez ontem uma revelação preocupante na Câmara dos Deputados. Segundo ele, quatro em cada dez professores que estão em sala de aula hoje no Brasil não têm a formação adequada para lecionar. Ainda segundo Soares, em algumas disciplinas, como física e filosofia, o percentual de professores de ensino médio que têm título acadêmico para dar aula gira em torno apenas de 30%. Essa distorção talvez seja um dos fatores que expliquem o fato de que parcela significativa dos alunos de 5º e 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio é considerado insuficiente, de acordo com os níveis da escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Em língua portuguesa, por exemplo, 300 mil alunos, ou 15% dos jovens do quinto ano estão nos níveis 0 e 1. Quando se considera o 9º ano, são 580 mil jovens em língua portuguesa e 560 em matemática que apresentam níveis insuficientes de proficiência. Na taxa de insucesso, reprovação e abandono escolar, a defasagem chega a 28% dos alunos do ensino médio, com o abandono de mais de 790 mil jovens ainda no primeiro ano desta etapa do ensino. A conclusão é que os jovens estão largando o ensino médio porque aquilo não lhes está dando perspectiva de futuro. A falta de capacitação dos profissionais de educação explica em parte a dificuldade dos alunos durante o processo de ensino e aprendizagem. Entre os profissionais com ensino superior, a formação também nem sempre é adequada. A impossibilidade de atualização constante dos currículos faz com que os cursos voltados para a formação de professores nem sempre acompanham a evolução da sala de aula. Apesar da carência de professores, só as vagas de graduação nas universidades públicas já seriam suficientes para atender à demanda. O problema é que faltam pessoas interessadas em seguir a carreira dentro da sala de aula. Esse desinteresse se deve principalmente à desvalorização da profissão nas últimas décadas, marcado por baixos salários e más condições de trabalho. Os dados reforçam que a principal agenda na questão docente é a da valorização. Isso é garantia de boa formação inicial e continuada, salário inicial atraente, política de carreira motivadora e boas condições de trabalho. Sem isso, a educação seguirá sendo feita na base do improviso.