Opinião
O direito de falar sem ser ouvido
A modelo plus size Natalie Hage se senta em sua poltrona para um voo. O passageiro do lado começa a mandar mensagens para um amigo com piadas de gordo. Ela confronta o homem, filmando para depois postar, alegando ter sido insultada. O vídeo viraliza e veículos de imprensa do mundo todo parabenizam a moça pela atitude corajosa. O apresentador de televisão William Waack faz uma piada sobre negros com um amigo, fora do ar. É atacado nas redes sociais e, em menos de 24 horas, o jornalista com 40 anos de carreira, que já foi correspondente de guerra, é demitido. Uma tragédia ocorre durante uma festa na Universidade de São Paulo. Um calouro morre afogado na piscina. Um ano depois, outro estudante bebe com os amigos num bar. Em clima de total descontração fala, claramente brincando, que ele teria sido o responsável pelo afogamento. Um delegado qualquer vê nisso uma confissão e prende o jovem. Casos diferentes, mas com algo em comum, o fato de os comentários terem sido feitos em caráter privado. Willian Waack falou em off, algo para não ser gravado. O vídeo foi posteriormente roubado da emissora e colocado na internet. A modelo só soube das piadinhas porque fotografou, sem consentimento, o celular do passageiro ao lado que mantinha uma conversa privada com alguém. O estudante da USP curtia a noite com amigos e foi filmado de forma inadvertida em seu momento de lazer. Devemos julgar o caráter dessas três pessoas baseado no que disseram? A resposta é um sonoro não. Se cairmos na tentação de julgá-las, estaremos caçando nosso próprio direito de, ao menos em nossos momentos mais íntimos, falarmos o que quisermos. É apenas sobre suas declarações públicas que alguém precisa dar explicações. É assustador que nos três casos as atitudes de violação à privacidade tenham sido não só toleradas pelas autoridades como aplaudidas por parte da imprensa. Aparentemente, a luta contra o preconceito deixou de ser uma batalha gloriosa e se tornou uma guerra santa, onde qualquer pecado é permitido por uma boa causa. A continuar assim, teremos medo até do que sai da nossa boca quando cantamos no chuveiro. Se não dermos um basta, em breve, a garota que tiver sua relação sexual filmada e tornada pública criminosamente, além de passar pela humilhação da publicação do conteúdo, vai ter que dar explicações sobre as coisas que falou durante sua intimidade entre quatro paredes.