Opinião
República dos Miseráveis
A cena é comum: indivíduos paupérrimos entram no ônibus e começam o discurso decorado: ?Pessoal, vamos combinar uma coisa, eu digo ?bom-dia? e vocês respondem pra eu não passar vergonha. Tá certo, gente?? Em seguida ao ?bom-dia? dos passageiros, ou eles pedem esmola, ou iniciam um relato longuíssimo da vantagem em adquirir algum produto à venda pela metade do preço. Vendem de tudo: chicletes, confeitos, chaveiros, adesivos, canetas e até pequenos manuais de português e matemática. Já o grupo específico de pedintes não se priva das mais elaboradas formas de aflorar a sensibilidade das pessoas no coletivo: cegos, cadeirantes, mutilados, pessoas com acidente vascular cerebral, crianças e mulheres grávidas (muitas acompanhadas de filhos menores a tiracolo) formam o grande quadro geral de gente que vive da mendicância. Maceió está cheia de mendigos. Esses citados acima são os que usam os transportes públicos como meio para sobreviverem. Há aqueles que se instalam em praças, em prédios públicos abandonados, debaixo de pontes e também em cima de marquises de edifícios comerciais na área central da cidade, ou seja, por onde quer que se olhe, há gente maltrapilha e morrendo de fome. Não é nova a preocupação do brasileiro em resolver o problema da miserabilidade, ?aliás, os velhos problemas do Brasil possuem isto em comum: perene atualidade. À falta de uma corajosa solução dos governantes, continuam sempre atuais?. A penúria por que passa o cidadão de Maceió é a mesma de todos os miseráveis do País, mais ainda, a questão é correlata em todo o mundo. Entretanto, o que muda ? e isso se torna significativo para a sociedade ? é como nós tratamos a pobreza. Para os países em desenvolvimento, a pobreza é uma grave questão em que se deve concentrar esforço para resolvê-la; para os lugares conscientes, a pobreza é um crime, tão abominável quanto o assassinato; entre nós, brasileiros, a pobreza se reduz a uma condição normal, própria de um país subdesenvolvido, ela é vista tal como uma espécie de marca da qual, sendo brasileiro, não se pode fugir! Em países desenvolvidos, há integração entre governo e sociedade da seguinte forma: os órgãos governamentais de combate à miséria são tratados como pilares estratégicos do desenvolvimento social; abaixo desses órgãos, entram em cena as ONGs, que também são incentivadas por governos. As ONGs, lá fora, servem como forte apoio para o governo. Aqui no Brasil funciona assim: o governo não faz muita coisa para erradicar a pobreza, a maioria das atividades é paliativa; as ONGs existem, como regra geral, ?de fachada? para fins duvidosos. Elevando o pensamento ao assunto, percebemos que as ações voltadas para a erradicação da miséria são tênues, não surtem resultados práticos, no máximo servem para mascarar mal o cenário degradante. A indiferença ou a ausência do poder público à miséria geram insegurança quanto ao futuro, e nos deixam nesse eterno estigma de República dos Miseráveis.