Opinião
Crer: abandonar-se a um Outro que nos tem em Suas mãos
A palavra de Deus sempre nos surpreende; coloca-nos cara a cara com os dramas da vida. No livro de Tobias (cf. 2,9-14), irada com o esposo, a mulher de Tobit, cego e pobre, passa-lhe no rosto a inutilidade de suas boas obras e de sua devoção para com Deus: ?Onde estão as tuas esmolas? Onde estão as tuas obras de justiça?? Esta atitude desprovida de sabedoria e piedade não está tão longe de nós como se poderia pensar... Carregamos no íntimo do coração uma percepção de que nossa piedade e amizade para com o Senhor nos protegem de todo o mal e nos colocam automaticamente em segurança, quase que ao resguardo das inseguranças e incertezas da vida. Afinal, o Senhor não é bom? Não é amor fiel para com Seus amigos? E, então, quando nos sobrevêm os desastres, as situações de dor e escuridão, quando nos sentimos como pobres joguetes das vicissitudes absurdas da existência, há, sim, uma tentação de perguntar por Deus e de nos perguntar para que serviu nossa amizade com Ele, nossa piedade, nossa entrega a Ele, nossa confiança no Seu amor... Podemos mesmo chegar ao extremo de afirmar: ?Deus é o grande Ausente! Ele não existe!? Nunca estaremos totalmente livres destas perguntas. Este sentimento, à beira do abismo da descrença, nunca deixará totalmente o coração do crente... A mulher de Tobit é insensata! Nas Escrituras Santas, a amizade com Deus não é uma relação de troca, não é uma busca de benefícios. O verdadeiro crente afirma a existência atual, atuante, presente de Deus, que tudo envolve e tudo penetra com Sua amorosa providência; mas também tem consciência de que este Deus bendito nos ultrapassa no Seu modo de ser presente e de agir... Deus não pode ser medido, esquadrinhado por nossa lógica e nossas medidas! Seu amor providente para com todos, para comigo, já se revelou suficientemente na Cruz e na Ressurreição de Jesus, o Filho amado. O verdadeiro crente transcende o pobre limite de uma lógica à medida humana e joga-se na certeza de que Deus É e Seu nome é amor: fidelidade, providência, presença! Há uma frase do livro de Jó que exprime isto quase que de modo absurdo, mas saborosamente verdadeiro, deliciosamente crente, fiel ao sentido mais profundo do crente ao seu Senhor: ?Ainda que Ele me mate, eu esperarei Nele...? (13,15) Cristo, nosso Senhor, viveu isto com intensidade máxima na Cruz; e experimentou na Sua carne o quanto para além de toda escuridão, toda dor e toda morte, a fidelidade do Senhor Deus é para sempre e se torna sempre ressurreição. Assim, que os incrédulos zombem, que os bitolados na bitola estrita da humana razão ridicularizem... Nós, coloquemos no Senhor a nossa esperança e Nele somente nos apoiemos: ?Ainda que que a figueira não dê fruto e não haja fruto na vinha, ainda que decepcione o fruto da oliveira e os campos não deem de comer, ainda que as ovelhas desapareçam do aprisco e não haja gado nos estábulos, eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação!? (Hab 317s).