Opinião
Questões pontuais, problemas estruturais
Os impactos observados na economia devido à greve dos caminhoneiros são muitos maiores do que o desabastecimento pontual. Essa paralisação explicita um grave problema estrutural da economia brasileira, que é a forte dependência do transporte rodoviário, especificamente caminhões, no que diz respeito ao transporte de cargas para fazer a economia funcionar. De acordo com a Confederação Nacional de Transporte (CNT, 2009), 61,1% de toda a carga transportada no Brasil foi pelo modal rodoviário. Chamo o desabastecimento de problema pontual, pois é uma situação inédita e acredito que a situação será normalizada, tão logo a greve dos caminhoneiros acabe. Essa questão, mesmo pontual, é gravíssima em face de todos os prejuízos causados a todos os agentes econômicos, conforme estamos observando. O problema estrutural é mais grave ainda, pois são necessários investimentos em infraestrutura para ampliar o transporte de cargas pelas linhas férreas (trens) e pelo mar (navios). E esses investimentos necessitam de volumosos recursos financeiros e as obras são de longo prazo. Mas o passo inicial precisa ser dado, sobretudo porque são modais mais baratos para escoar a produção: enquanto um caminhão gasta, em média, 2,3 litros de diesel para se descolar 100 km, um trem gasta 0,4 litro e um navio gasta 0,3 litro. O transporte por caminhão é 475% mais caro do que pelo trem e 633,33% mais caro do que pelo navio. Em uma pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial (2015/2016), o Brasil aparece em 109o no ranking da qualidade das estradas. Além das condições precárias das mesmas, os pedágios são muito caros. Por exemplo: quem viaja de automóvel pela BR-040 de Juiz de Fora ? MG até a capital do Rio de Janeiro (175 km de distância), paga 3 pedágios de R$ 11,20 cada um. Só em pedágios, o condutor gasta R$ 33,60. Se a eficiência do seu automóvel for de 12 km/l e o litro de gasolina esteja a R$ 4,29/l, o gasto com combustível será de R$ 62,56. Considerando apenas gastos com combustível e pedágio, a viagem custará R$ 96,16, dos quais 34,94% são com pedágio. Tudo isso mostra como é caro o transporte pelas rodovias. Caro para os caminhoneiros por conta dos preços dos combustíveis e de todo o gasto para manter o seu caminhão, além dos riscos que correm! Caro para o condutor do automóvel! Caro para a sociedade, que paga mais caro para comprar as mercadorias transportadas por esse modal! Isso mostra que não basta apenas lutar pela redução do preço do diesel e sim por uma reforma tributária ampla e por mais investimentos em infraestrutura nos transportes, na educação, na tecnologia de modo a ampliar a produtividade e a eficiência da economia brasileira de modo que a população possa ter acesso a bens e serviços de qualidade a preços mais baixos.