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HUMBERTO MARTINS * É uma velha sentença, aquela segundo a qual deve-se ensinar o homem a pescar, ao invés de dar-lhe o peixe para comer. A citação vem a propósito do Fome Zero, principal programa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eu assumi o governo há pouco mais de três meses. Compreende-se plenamente a determinação com que o presidente da República combate a fome. Ele não conhece esse flagelo através de livros, filmes ou da televisão. Ele sentiu na carne o que é passar a noite com a barriga vazia, amanhe cer sem saber como será a primeira refeição, contemplar o dia, a semana, o mês, sem uma perspectiva de ter o que comer. Nasceu numa área pobre, um nicípio de Caeté, de um Estado po bre, Pernambuco, de uma região po-bre, o Nordeste. O pai largou a famí-lia e viajou para São Paulo, em busca de dias melhores. O que era um esforço para melhorar o nível de vida da família, transformou-se em abandono, e uma nova etapa desse drama foi o pequeno Lula, a mãe e irmãos embarcaram no lombo de um cami-nhão ? pau-de-arara ? em busca de dias melhores em São Paulo. Trabalhando e participando das lutas políticas, enfrentando inclusive a repressão policial e a cadeia, Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presi-dência da República, mas não es-queceu os dias adversos da infância e da adolescência, passados no Agreste de Pernambuco ou na peri-feria da grande São Paulo, onde a fome é companheira de milhões de pessoas. Mas transformar a compreen-sível ambição do presidente da Re-pública de matar a fome de 40 mi-lhões de brasileiros que não têm o que comer, em realidade, é, apesar do apoio generalizado da população, uma meta extremamente difícil e complicada, nunca impossível. Arre-cadar, transportar, armazenar e dis-tribuir, família por família, os gêne-ros imprescindíveis a três refeições, é quase impraticável, considerando-se a amplitude do universo a ser aten-dido. Estabelecer um sistema de carnets ou vale-refeições, também apre-senta o inconveniente dos descontroles e desvios tão comuns em programas de gênero. O desejável seria aproveitar os canais que já existem entre os governos e as populações extremamente pobres, tais como vale-refeição, vale-escola, e programas análogos, valendo-se das experiências positivas e corrigindo-se os erros constatados. O reforço da merenda escolar é uma outra opção que não deve ser relegada. Mas sempre tendo em vista que essas são soluções provisórias, porque o único caminho para alimentar os famintos é dar-lhe educação e trabalho, é retomar o crescimento econômico e repartir os frutos do desenvolvimento. O Fome Zero é, entretanto, merecedor do apoio de todos os brasileiros preocupados com a situação de extrema penúria de grande parte dos seus compatriotas, em percentual apenas comparável ao da maioria das nações africanas. Mesmo que não alcance os objetivos colimados, ficará como demonstração do esforço de uma nação que já não se conforma com a péssima distribuição de renda e com a marginalização de quase um terço dos seus habitantes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá até ser considerado o homem público que tentou, e não conseguiu, em curto prazo, vencer a fome de milhões de brasileiros. Mas jamais será acusado de ter ficado omisso e indiferente em face de tão grave problema. A própria Constituição Federal no capítulo dos Direitos Sociais ga-rante a todos os brasileiros a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados (famintos). Assim, combater a fome e a mi-séria não é missão exclusiva do governante, mas dever de cada um de nós, ou seja, da sociedade brasileira. O Programa Fome Zero é um ideal social, um dever de todos. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/ALAGOAS

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