Opinião
Uma greve anunciada
Há décadas o Brasil convive com oscilações e incertezas quando o assunto é o preço dos combustíveis. Apesar de termos uma empresa capaz de suprir o mercado interno, as políticas adotadas quase sempre nos atrelaram às variações internacionais, o que provocou vexames, como o racionamento nos anos 1980, com longas filas nos postos, já que estes eram proibidos de abrir nos fins de semana, e um investimento numa tecnologia ainda incipiente: carros movidos a álcool ? veículos a gasolina eram raros. Como sempre, tudo sobrava para o consumidor. A história agora se repete com a greve dos caminhoneiros. A Petrobras, ora administrada por Pedro Parente, optou por reduzir nossa capacidade de refino, exportar óleo cru e incentivar a importação, mesmo o País sendo autossuficiente. Nossa estatal exporta 400 mil barris/dia (20% de sua produção de óleo bruto) e importa a mesma quantidade em gasolina e diesel. Não é excedente. Mas acontece que temos capacidade de refinar o produto aqui, contudo isso não é levado em conta, o que gera ociosidade das nossas refinarias. O objetivo é atrelar o preço ao mercado internacional. Daí, as altas sucessivas, constantes, abusivas que resultaram no levante dos caminhoneiros. Estamos pagando os custos de uma política desastrosa. Para agravar o quadro, nossa carga tributária é pesada. O consumidor não acompanha as minúcias desses artifícios comerciais, para ele, o que interessa é o preço na bomba. Por que tão caro? Dá para reduzir? Os caminhoneiros acham que sim e fizeram as contas, mas advertindo que se não houvesse redução no preço, haveria o caos. Um vídeo da Federação das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo, produzido há meses, simulava o que aconteceria, dia a dia, caso os caminhões parassem. Tal qual aconteceu: postos sem combustíveis, desabastecimento, hospitais sob risco, insegurança. Os caminhoneiros enviaram documentos para o governo com reivindicações e chegaram até a programar a data da greve. Arrogante, a cúpula palaciana deu de ombros para um problema que inflava e acabaria por revelar a debilidade dos nossos atuais comandantes. Surpreso, acuado, o governo cedeu, e, com isso, decretou seu fim prematuro. O Congresso informou que vai desenvolver pauta própria, sem levar em conta os reclames do governo. Aos poucos a situação tende a voltar à normalidade, pelo menos durante os próximos 60 dias, nos quais o Palácio se comprometeu a não impor majorações. Mas algumas questões merecem ser analisadas. Boa parte dos caminhoneiros que parou é formada por autônomos, trabalhadores que compraram seu instrumento de trabalho graças a incentivos dados pelos governos anteriores ao atual. Um comentarista do maior complexo de comunicação do Brasil criticou a decisão: ?Tem caminhão demais?, disse e foi duramente criticado ? é gente que acha que pobre não poderia viajar de avião. Esses trabalhadores precisam pagar a prestação do veículo e manter a família com o que sobra do valor do frete cobrado, só que reajustes semanais no diesel indicavam que acabariam na miséria, a conta não fechava, daí a radicalização. Curiosamente, a greve obteve o apoio da população, por ser um pleito justo e muitos deduziram que, se eles vencessem, os ganhos seriam de todos, todos que rodam pelas ruas e estradas brasileiras.