Opinião
Os limites do ficcionista sobre seus personagens
Escrever ficção é uma experiência transformadora. Uma oportunidade para o escritor descobrir seus limites e sua capacidade de inventar. Talvez, por isso, compreenda o que Graciliano Ramos tenta explicar ao dizer: ?Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só?. Até hoje, acredito na existência de cada personagem que construí. São reais a ponto de encontrá-los na rua, alheios à minha observação de seus rostos, estatura física e gestos. Razão de dizer sempre que, embora um romance nasça por inteiro na cabeça do escritor, os personagens é que são imprevisíveis. É o verbo que encarna o ser humano que criamos na ficção. As palavras vão construindo, e cada um deles vai tomando forma, personalidade, a ponto de, em determinado momento, o autor perder o domínio sobre eles. A partir daí, é preciso alinhavar a coerência entre as suas decisões e de seus personagens. Em tudo o que já escrevi, não imagino um personagem mais forte do que Maria Querência, no romance Doce de Mamão Macho. No entanto, posso dizer que toda a sua força interior foi construída, no papel ambíguo que ela representa, por si mesma. Ao contrário de Zé Marreca, cujo arcabouço de maldade possui uma relação direta com sua linhagem familiar entre a avó e a mãe. Por isso, tive algumas surpresas ao ouvir queixas de leitores com orientação bem ortodoxa sobre a morte prematura da personagem. Mesmo assim, a trilogia completa é marcada por flashback de sua presença. Quando escrevi Água de Chocalho, imaginei que Enedina, como personagem central, narradora de boa parte do texto, com sua vida de sofrimento, miséria e superação, pudesse ser, realmente, protagonista, a ponto de quase fazer dela prefeita de Vila Clara. No entanto, a personagem teve excesso de confiança, possivelmente encorajada por mim mesmo. Não posso negar. Mas a vencedora no certame teve muito mais habilidade política. A história de vida de Enedina não venceu entre seus pares. E, para minha surpresa, estou agora às voltas com outra narrativa ficcional, baseada em Chiquinha ? a rezadeira, uma personagem secundária que permeia algumas poucas páginas do mesmo livro, mas que se torna tão evidente que contempla uma obra só sua. Finalmente, para mim, a ficção não pode ser linear, coerente e lógica. O autor deve se lançar, inconsequentemente, como um mediador de seus personagens sem interferir em suas ações. Os personagens se tornam reais à medida que são coerentes consigo mesmos. E esta coerência está implícita quando o autor percebe qual será a ação desse personagem. O poder do autor não é o de conhecer a trama, mas de permitir que as ações sigam o rumo que o personagem escolher.