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Opinião

À sombra da gramática

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Talvez o aspecto mais difícil para um professor de Língua Portuguesa seja ensinar aos alunos a diferença entre a gramática normativa e a variação linguística do idioma. Vem daí a (péssima) fama de que o Português é a língua mais difícil do mundo: escreve-se de um jeito, fala-se de outro... A confusão a respeito do assunto é compreensível. Mesmo quem se interessa por desvendar os mistérios do idioma, se confunde com aquilo que se aprende numa gramática cheia de regras e com o que se lê ou se fala no meio em que vivemos. A linguagem (dita) culta é bastante diferente da comunicação informal, não há, assim, conformidade entre as convenções rígidas da gramática e o linguajar do dia a dia. Apesar de eu ensinar gramática, não a defendo em todas as circunstâncias, muitas vezes escolho a linguagem descontraída, familiar, desapegada da lógica idiomática. E essa distinção entre ensino e uso pode gerar dúvida quanto ao ?certo, o errado ou o possível? na linguagem. Outro dia, ensinava regência verbal para uma turma que se prepara para o Enem. E eu lhe expliquei detalhes sobre o verbo ?preferir?, que (conforme a gramática normativa) exige ?objeto indireto? com a preposição ?a? ? e nunca com ?do que?. Todos entenderam. Dei um exemplo com aquele verbo (?Prefiro chocolate a sorvete?). Entretanto, fiz questão de lhe passar que, no dia a dia, pode-se falar ?Prefiro chocolate do que sorvete?. Comunicar-se desse jeito, sim; escrever esta mesma oração na modalidade formal, não! Essa ?descontração? no modo de se expressar ? que muitas vezes vai de encontro às normas do idioma ? não fica apenas na fala, existem inúmeros registros dessa variação linguística em poemas e músicas. Raul Seixas, por exemplo, usava (e abusava) desses desvios gramaticais para chegar ao coração e à mente de seus fãs. Na canção Metamorfose ambulante, um de seus maiores sucessos, o roqueiro canta: ?Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante ?do que? ter aquela velha opinião formada sobre tudo?. No lugar de ?do que? a gramática exige que se coloque a preposição ?a?. Mas, verdade seja dita, mandemos a gramática às favas: a música ficou maravilhosa! Na mesma música, o genial Raul escreveu: ?Se hoje eu sou estrela, amanhã já se ?apagou?(sic)?. Ele lançou a ação verbal para o futuro usando o ?pretérito perfeito? (?apagou?). Excelente na música; só que não se faz assim na linguagem escrita padrão, porque a gramática só permite usar para tal contexto o ?futuro do presente? ou o ?futuro do pretérito?. A respeito de adequação comunicativa, o mestre Celso Pedro Luft escreveu: ?A gramática é variável, porque toda língua o é, ?unidade na variedade? (...)?. Isso quer dizer que o falante moldará o idioma à modalidade de expressão à qual se prontifica: para situações mais ?formais?, a gramática normativa ainda impera absoluta, suas regras são rigorosas; para ocasiões descontraídas, apenas a comunicabilidade (talvez) se justifique. Devemos ter cuidado com os usos da linguagem.

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