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Opinião

Gonzaga Leão, poeta

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Despedi-me, semana passada, de um querido poeta e amigo. Minto: despedi-me do homem Luiz Gonzaga Leão, do mero invólucro físico onde até bem pouco tempo palpitava o seu imenso coração. Porque o amigo Luiz, esse ficará na minha lembrança com os seus olhos azuis que faiscavam poesia; e o poeta, o tão grande poeta Gonzaga Leão, jamais se apartará da minha memória nem da minha saudade, com os seus versos prenhes de beleza e de sentimento. ?Mas sinto-me ave sem pluma/ que já não sabe voar/ nem mesmo dentro de mim?. Esses são versos de Gonzaga Leão, o poeta que nos deixou há poucos dias. Versos dos vários com que ele nos brindou em diversos livros, ao longo de tantos anos de fecunda atividade poética. Possuo três deles, devidamente autografados: Casa somente canto, casa somente palavra (1995), Preparação da manhã (2005) e Tijolo sobre tijolo, palavra sobre palavra (2012). Desde o seu nascimento, no distrito de Rocha Cavalcante, em União dos Palmares, em 1929, até a sua morte, em Maceió, aos 89 anos incompletos, o que Gonzaga fez mesmo, e melhor, foi ser poeta, poeta dos bons, daqueles que conseguem falar à nossa alma como se dissessem as coisas mais simples. Bacharel em direito e funcionário do Banco do Brasil, encontrou-se consigo mesmo nas letras, com as quais não cansou de professar a sua fé no amor e na criatura humana, como ele mesmo escreveu: ?A vida, tantas vezes amarga, suja, violenta, mas que nos deixa, como raspa no fundo do tacho, alguma coisa de sua beleza, de sua sensualidade?. Faz poucos meses que o vi, sem nenhum sinal exterior de que estivesse terminando a sua caminhada (?não importa saber para onde eu vou,/ se vivo sempre o sonho da partida?). Afável e cordial, encabulava-se quando eu lhe recitava alguma coisa sua: ?De tudo me dá a vida./ Se me dá noites de trevas/ me dá claras madrugadas?, ou ?a noite sentiu-se grávida/ e aí a manhã nasceu?. Se agora o perdemos na matéria, não o perdemos no que de melhor ele nos deixou: seus versos inspirados e inspiradores, verdadeiras joias da literatura alagoana de todos os tempos. Para Alagoas, o desaparecimento de um ser humano da categoria de Gonzaga Leão representa um doloroso desfalque literário e humano. Discreto em demasia, beirando a timidez, o meu pranteado amigo era um sentimental. Amava a família, os amigos, a literatura. Não creio que Gonzaga tenha morrido. Só o seu corpo adormeceu para sempre, com a glória de ter sido o que ele foi ? ?partir como sei bem partir de mim/ que é como faço e sempre fiz e agora/ saudoso de partir e não voltar?.

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