Opinião
Dói o coração dos alagoanos
Nos anos 60, ainda cursando o que hoje chamamos de Ensino Fundamental, tive como colega de turma no Colégio Pio XII um cara magricelo, cabelos escorridos pela testa e meio caladão. Seu nome, Wanderley. Os professores eram todos padres ? o colégio pertencia à Congregação do Sagrado Coração de Jesus ? uma instituição rigorosa na disciplina e qualidade de ensino com um corpo docente dividido entre holandeses e brasileiros. Uma fase dourada no nível educacional de Palmeira dos Índios, berço da cultura do Estado. A história e os talentos que de lá voaram para o mundo falam por si. O que ninguém poderia imaginar é que aquele menino de Cacimbinhas, sereno, estudioso e amigo, às vezes introvertido, viria a ser o José Wanderley Neto, uma das maiores referências da medicina cardíaca do Brasil. Um médico respeitado pela competência, ética e preocupação com os pobres, os que dependem exclusivamente do SUS para ter esperança de não morrerem graças à falência da saúde no País. Reiterar suas qualidades de cidadão é redundante porque certamente não há um alagoano que não o conheça pelo menos de nome. Não há um sequer que não lhe tribute respeito, admiração e orgulho por tê-lo como conterrâneo. Dr. Wanderley na medicina é para Alagoas como foram outras ilustres personalidades na arte, cultura e esporte! Sua inquietação acompanhada de angústia nos últimos anos em conversa com amigos tinha razão de ser: no agora luxuoso gabinete do hospital da sua vida, a Santa Casa de Misericórdia de Maceió, tramava-se o fim do Instituto de Doenças do Coração. Enfim, concretizado com requintes de sadismo, lentamente, por inanição. Os demais guerreiros, aos poucos depuseram as armas para o poderoso inimigo. Vaidade e egoísmo superaram a razão e o mal venceu o bem. Desnecessário repetir os números de transplantes, cirurgias cardiovasculares e atendimento a ricos e pobres. Mas, nunca é demais dizer o quanto o menino de Cacimbinhas e ex-aluno do Colégio Pio XII elevou nome da Santa Casa e do Estado no exercício do árduo sacerdócio médico. Em 2013, em pesquisa realizada pela Análise Editoria e publicada pela Análise Saúde, médicos do Brasil elegeram José Wanderley Neto e a Santa Casa de Misericórdia entre ?os mais admirados dos Brasil?. Na área da cirurgia cardiovascular, os entrevistados citaram como instituições de primeira linha, a Santa Casa de Maceió e o Hospital Albert Einstein, Hospital das Clínicas, Hospital do Coração (HCor), Sírio-Libanês, Instituto Dante Pazzanese, todos de SP. A pergunta foi: ?Se precisasse de atendimento especializado em determinada área, a qual hospital e médico recorreria?? Entre os cirurgiões cardiovasculares, o nome do cardiologista Wanderley Neto aparece no seleto grupo de 39 profissionais citados pelos mais de 4 mil médicos consultados. Portanto, neste episódio tão comentado, a flecha rancorosa atingiu o coração da sociedade alagoana. Feriu a todos os excelentes médicos da amada Santa Casa nas diversas especialidades. Dr. Wanderley tem história, não exibicionismo; serviço prestado, não extrema vaidade; solidariedade, não cobiça de poder. Disseminar discórdia por onde passa é defesa dos fracos.