Opinião
Quem é Deus
Quando converso com minha filha sobre a criação do mundo (no contexto religioso), sempre acho que fico lhe devendo uma explicação melhor, porque a palavra ?Deus? aparece frequentemente e eu tenho dificuldade em analisá-la de maneira satisfatória. Ora dou à minha menina um retrato sobre o Criador igual àquele que eu aprendi quando frequentei o catecismo, ora lhe passo a ideia de que Deus é absolutamente tudo, sua imagem está representada em todas as coisas (e pessoas) ? de um mendigo na esquina perto lá de casa até o desabrochar duma rosa no meio do jardim. Generalizo mesmo. Só fico sem palavras quando ela questiona sobre dúvidas universais: ?Se Deus está em todos, o que ele quer provar ao permitir a ação dum estuprador ou assassino, papai?? Explicar-lhe isso é um deus nos acuda! Do Deus específico da Bíblia ao Deus que está em tudo, ?todos? estão presentes em mim. E eu os apresento à minha filha conforme meu humor. Sou assim. Não que eu mude de opinião à vontade do vento, mas, assim como a humanidade, tento entender o ?incompreensível? agarrando-me ao que encontro à frente. Minha opinião a respeito desse assunto não ultrapassa a linha da ignorância, por isso sou comedido nas palavras (ou tento sê-lo, pelo menos). Essa atitude é menos por medo de ofender a alguém do que por receio de influenciar outrem com meus devaneios. Vai que eu esteja errado e seja condenado ao fogo do inferno por isso! A humanidade passa por um período de depravação da moral. O conjunto de valores sobre o qual o mundo foi fundamentado se perde a cada dia. A família, por exemplo, não tem mais o mesmo peso em ouro: pai, mãe e filhos não formam mais um grupo sagrado. É assim que pensa a maioria. Por consequência, todos os outros males da sociedade se intensificam porque a base do homem ? a própria família ? está se desfazendo. Em muitos casos, a família não passa de mais um grupo de indivíduos que (mal) se tolera. Creio que a causa desse caos moral por que passamos se deva à falta de fé. E Deus, para mim, é isso: fé. Não tenho uma figura dele formada na mente, não sigo cegamente religião (prefiro ?absorver? um pouquinho de todas), não gosto das atividades litúrgicas e tampouco acredito num único caminho para encontrá-lo ? entretanto me considero crente nesse Ser superior. E foi isso que tentei passar à minha filha: o importante mesmo, independente de qualquer crença ou ideologia religiosa, é ter fé. Crendo em si mesmo, nas pessoas e na vida, assim, por tabela, se acreditará em Deus. Sobre os pontos de vista a respeito de Deus, o filósofo e escritor francês Diderot (1713-1784), em Pensamentos Filosóficos, exemplificou de forma precisa uma ideia bastante atual: ?Pelo retrato que me fazem do Ente supremo, de seu pendor para a cólera, o rigor de suas vinganças, de certas comparações que nos exprimem em números entre a relação dos que ele deixa perecer e a dos que se digna estender a mão, a alma mais pura seria tentada a desejar que ele não existisse?.