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Opinião

Relíquias e esperanças de felicidade

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Sempre soube ser uma relíquia, objeto preservado para efeitos de veneração, e apesar de ter a certeza de que a minha existência não se trata de um museu, desde cedo procurei armazenar itens para em determinados momentos serem usados, recompondo pedaços de minha história de vida. Meu primeiro telefone celular, um Motorola tipo tijolão, juntamente com uma máquina fotográfica, modelo sanfona, herdada de um ancestral querido, são alguns dos inúmeros itens cuidadosamente guardados em antiquíssimo deposito, com mais de duzentos anos de existência: o Baú, com as iniciais do nome de minha bisavô materna, por ela trazido quando de seu casório, no início do século vinte, ainda hoje é um seguro reservatório para álbuns de fotografias, desbotadas pelo tempo, retratando familiares vividos há inúmeras décadas, embora ainda intocáveis em meu coração, sempre que lhes vejo as imagens. O que mais me encanta, contudo, é uma camisa amarela com gola em ?V?, de cor verde, similar à usada pela Seleção Brasileira nos estádios ingleses nos idos de 1966, trazendo bordadas no peito ainda apenas duas estrelas bem acima do símbolo da CBD, então entidade máxima do futebol brasileiro, antecedendo a atual CBF e, à época, usada por meu genitor, na torcida, ao pé do rádio. São objetos, repletos de história e, mesmo com o passar dos tempos, ainda ajudando a recordar momentos importantes, revitalizando recordações, animando a seguir em frente. Iniciou-se mais um Campeonato Mundial de Futebol. O time brasileiro, apesar dos sofrimentos, passou por seus primeiros obstáculos, seguindo célere para materializar o sonho de milhares de torcedores, confiantes de que o verde e o amarelo brilharão nos Estádios da Rússia. Confesso que, diferentemente do ocorrido em certames anteriores, não estive muito animado com a perspectiva de vivenciar um mês, quase de férias, considerados os folguedos juninos, misturados à total parada dos trabalhos, em todos os níveis, nos dias de jogos. A roubalheira generalizada, a falta de respeito explícita praticada em nossa pátria, a inexistência de candidatos dignos de merecerem o meu voto nas eleições, sem falar na ruidosa sova que levamos dos alemães, na última Copa, são ingredientes a mexer com minha cabeça e meu coração. Mas, como de repente resolvi aderir ao sonho do hexa (que alguns incrédulos chamam de equiçá) e rebuscando o velho Baú, dali retirei a camisa canarinha, com o número 10, ainda de Pelé, e resolvi acreditar em Neymar, imaginando vibrar com seus gols, como já acontecera com o próprio rei em 1970, Romário em 1994 e Ronaldo Fenômeno em 2002. O certo é que esta camisa, herdada de meu pai, já me fez sofrer mais revezes do que vibrações com títulos. No fatídico ?sete a um?, de 2014, tive vontade de queimá-la, porém, tal loucura não aconteceu, até, porque, no fundo de um grande baú onde se encontram tristezas sempre existem relíquias de felicidade para serem saboreadas. Confio que a Sexta Estrela, desta vez, virá!

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