Opinião
Nos gramados e no Supremo
Em sua obra À Sombra das Chuteiras Imortais, Nelson Rodrigues cita o caso do jogador Jaguaré, que jogou em uma época na qual os clubes não tinham departamento médico e um jogador poderia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Segundo Nelson, Jaguaré não tinha dentes, só caries. E seu riso sem obturações era docemente alvar, largo permanente e terrível. Jaguaré e o seu riso fazem-nos lembrar o Clóvis, centroavante do CSA dos anos 1960, jogava plantado na área adversária, caía muito, mas sempre levantava com um sorriso alvar que contrastava com a brilhante tez escura. Era motivo de medonhos xingamentos da torcida regatiana, mas nunca se abatia e fazia bizarros gols no CRB. Naquela época no Supremo, três ministros, Hermes Lima, Victor Nunes e Evandro Lis foram afastados compulsoriamente por não aceitarem o AI-5 promulgado pela ditadura militar. O Nelson era um acalorado defensor dos xingamentos no futebol. Afirmava que não existia futebol sem xingamentos, citava o Bocage de anedota e afirmava que o Bocage fidedigno nunca existiu. Garantia que estava para nascer um jogador ou torcedor que não fosse bocagiano. Daí, pais, mães e avós, relaxem: deixem as crianças soltarem os rijos e imortais palavrões todas as vezes que o Neymar driblar no meio do campo ou cair quando um zagueiro assoprar no seu cangote. Principalmente, quando o juiz não marcar o que a torcida brasileira queria. Nelson reclamava dos juízes muito honestos e sérios como Mário Vianna,pois a virtude no futebol, segundo ele, poderia ser muito bonita, mas exalava um tédio homicida, e além disso causava acidez, úlceras intratáveis que obrigavam a se submeter a uma dieta terrível. Se Nelson estivesse atuante no gol da Mano de Dios de Maradona no México, ele faria uma tremenda crônica. Diferentemente das suas crônicas, o Nelson era um sujeito muito conservador. Acusado pela esquerda de reacionário, só teve o seu multifacetado gênio ? expresso nas crônicas, romances e principalmente no teatro ? reconhecido muito tempo depois. Provavelmente ele estranharia muito o VAR usado na Rússia na tentativa de elucidar lances polêmicos em busca de virtude nas decisões em campo. Estranharia muito mais, conjuntamente com os brasileiros, que acreditam que o crime não deve compensar, as atitudes dos três ministros do Supremo, Tofolli, Lewandovski e Gilmar Mendes que soltaram o Zé Dirceu subvertendo jurisprudência do Pleno, e querem mesmo é livrar o agora comentarista de futebol detido em Curitiba. Eita segunda turma cruel e ingrata! Não nos dá nem uma pausa para relaxar com o futebol!