Opinião
Pobres, mas limpinhas
Algumas das casas que eu frequentava na minha infância eram muito simples, humildes mesmo, e foi nelas que eu aprendi que pobreza não é sinônimo de sujeira nem de desarrumação. A de seu Horácio e dona Nita, por exemplo, tinha um chão de tijolo batido onde, de tão bem varrido que era, seria possível ver-se um fio de cabelo que ali tivesse caído. Na cozinha, o paninho branco que cobria a boca do pote d?água possuía uma alvura de causar inveja em qualquer lenço de madame em dia de festa, e as panelas areadas, penduradas numa trempe, brilhavam refletindo os raios de sol que entravam pela janela. Os mosquiteiros dos quartos não tinham um resquício sequer de poeira, e as camas estavam sempre tão impecavelmente forradas que desestimulavam em nós, meninos, qualquer ideia de utilizá-las como palco das nossas estripulias. O bom gosto não imperava em todas elas, é claro, e nem seria razoável esperar-se isso na Murici da década de 70. Mas em meio à breguice de então se percebia uma vontade genuína de deixar o lar sempre bem limpo e acolhedor, casa com cara de casa, para agradar aos olhos das visitas e dos seus próprios moradores. O fogão, o bujão de gás e a geladeira eram ?vestidos? de roupas de plástico, e em cima desta última sempre repousava o indefectível pinguim de louça (o de lá de casa carregava uma bengala de arame pendurada em sua asinha perfurada). Havia também uns tapetes plastificados postos à frente desses eletrodomésticos, muitas vezes provocando escorregões e quedas em quem se dedicava às atividades culinárias, como a minha avó Izarele. A sala de estar abrigava a televisão, em cujas antenas uma palha de Bombril ajudava a tirar o chuvisco das imagens. No tempo do preto e branco, algumas pessoas guarneciam o aparelho com uma tela de acrílico em degradê, nas cores vermelha, amarela ou azul, que fazia a alegria da criançada ávida por novidades. Ao lado do sofá encarnado, uma estátua em gesso pintado de um jornaleiro em trajes europeus, boina na cabeça e mão à boca para anunciar as notícias do dia. Pertinho da porta, outra estátua, essa de um pastor alemão capa-preta sentado sobre as patas traseiras, a sua grande língua cor de sangue pendurada e as orelhas sempre em estado de alerta. Uma poncheira de plástico laranja e verde em formato de abacaxi, um quebra-luz com motivos japoneses, uma mesinha de centro em madeira preta com tampo de mármore branco, uma espreguiçadeira com forro de xadrez e uma cadeira de balanço de palhinha, com pés de ferro que sempre arranham o piso de mosaico ? muitos objetos idênticos em todas as coisas, adquiridos dos prestanistas que passavam de porta em porta, formando um só cenário que nos era sempre familiar e acolhedor.