Opinião
Divisor de águas
Existem acontecimentos que podem ser identificados como um verdadeiro divisor de águas, representando um antes e um depois na significância do nosso ser. As mães muitas vezes abordam isso como a experiência do parto, os casados no dia do matrimônio, e tantas pessoas através de uma experiência forte com o sofrimento, geralmente com algo inesperadamente sucedido. Estou lendo o livro Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e diante da análise existencial que o autor faz através de cada personagem, digo que um aspecto me chamou bastante atenção. A história é iniciada como a biografia de Alieksei, e este tem um papel singular em todo o enredo. Diante das múltiplas e diferentes visões de mundo de cada membro da família Karamazov, Alieksei é aquele que mais destoa, pois sua experiência religiosa o impulsiona a ser cada vez mais bondoso e gentil, alguém que tem fé naquilo que o ser humano pode dar de melhor. A narrativa vai sendo construída e percebe-se a fé assim natural deste jovem que tem como mestre espiritual, ao qual dedica toda a sua afeição, o monge Zossima, um ancião com uma bela história de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com Deus. Essa relação chega a um momento que converge em um divisor de águas na vida de Alieksei. Diante da morte do seu diretor espiritual, aquele jovem perde alguém que muito amava e representava um ideal para sua vida, contudo, a ausência gerou profundamente uma mudança no seu comportamento para com Deus e com outrem. A perda o fez amadurecer, a ponto de haver uma transição de discípulo para mestre, no sentido de poder expressar e conduzir os outros a uma nova concepção das realidades divinas. Acredito que a morte tem esse poder. Confrontá-la pode ser uma ótima oportunidade para olharmos a brevidade da nossa vida e ressignificar valores. A perda, a impotência e o mistério, tornam-se instrumentos para um amadurecimento nas relações, e dentre estas, o melhor seria naquela que se refere ao Senhor de todas as coisas. O ser humano sempre quis ter o controle de tudo e a morte não se deixa subjugar a isso. Como não temos esse poder, alguns quiseram definir inclusive a sua chegada, e a Eutanásia é a expressão disso. Mas, acredito que o mais importante é sabermos que podemos aprender muito com a sua presença. Na morte, as ausências se dissipam, porque aquele que ali está passa por um encontro com Alguém que tudo pode explicar, e principalmente, plenificar. Um dia isso acontecerá conosco também. Pensemos nisso e refaçamos nossa história.