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Opinião

O contraditório da felicidade

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Numa manhã chuvosa me deparei com uma cena que, a princípio, classificaríamos como contraditória. Numa praça, onde ficam muitos moradores de rua, um rapaz dançava na chuva. Era perceptível que naquele momento ele estava feliz. Seu rosto irradiava alegria. Ele não tem nada, a não ser a roupa do corpo, uma bermuda e uma camiseta, totalmente molhadas. O alimento, ele o tem quando a caridade chega até eles. Mas ele está feliz. Não tem nada e tem tudo! Inevitável não lembrar de uma palavra de Jesus: ?Tendo o que comer e o que vestir, estejam contentes, alegrem-se, comemorem a vida.? Não quero aqui fazer uma apologia da pobreza nem afirmar que o desapego total às coisas materiais é a base de toda e qualquer felicidade. Até porque somos também matéria e temos carências e necessidades físicas, supridas por bens materiais. Mas a título de reflexão, é também verdade, por outro lado, que o apego quase doentio ao consumismo de autoafirmação e esnobação que vivemos hoje, é um fator de desorganização não só financeira, mas emocional também. Somos estimulados a ?ter? mais do que o necessário e, agressivamente estimulados a ?ter? o desnecessário. Isso provoca competição e carências doentias e o risco de comprometimento da ética, do caráter, da espiritualidade do ser, além de nos centrar apenas em nós mesmos e não enxergar as necessidades do próximo. Por isso me parece bastante atual e oportuna aquela pequena, mas sábia e equilibrada oração de Salomão, no livro de Provérbios, quando diz: ?Duas coisas eu te peço, ó Deus: ?Não me deixes mentir e não me deixes ficar nem rico nem pobre. Dá-me somente o alimento que preciso para viver. Porque, se eu tiver mais do que o necessário, poderei dizer que não preciso de ti. E, se eu ficar pobre, poderei roubar e assim envergonharei o teu nome, ó meu Deus?.? O tudo, sem Deus, é nada! E o nada, com Deus, é tudo! Deus no coração é a riqueza maior e sua presença nos traz a paz que acalenta e alegra nosso coração, mesmo em meio aos infortúnios. Paz esta que se constrói e reconstrói na convivência fraterna e solidária com o outro. No compartilhamento do meu ser para a construção do outro. Eis que, então, o ?ter? deixa de ser obsessão e projeto de vida, mas instrumento da graça de Deus para abençoar o meu contexto social, família, vizinhos, em especial, aquele que carece do pão de cada dia. Sem essa obsessão e pressão do ?ter?, descobriremos que a vida, por si só, é o tesouro maior a ser celebrado a cada dia, faça sol ou chova. Será que cabe aqui aquela outra palavra de Jesus: ?Busca em primeiro lugar o Reino de Deus e ele satisfará as necessidades do seu coração?? Pense nisso e até a próxima.

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