Opinião
Dona Tetê
Dona Tetê é a única sobrevivente dentre as grandes amigas da minha avó Maria. As outras companheiras fiéis da mãe do meu pai, que a acompanhavam nas missas, nas novenas e nos velórios, já fizeram a grande travessia: Aurelina, Madalena, Sebastiana, Hilda, Eulália, Tonha, Maria Fofa. Dona Tetê despediu-se de todas elas, foi ficando e chegou aos 92 anos lúcida, ativa e saudável, tornando-se um verdadeiro ícone da comunidade muriciense, quase uma instituição, respeitada e estimada por todos os que vivem na minha terra natal. Maria Puresa é o seu nome de batismo, embora ninguém a chame assim. E não poderia haver um nome mais apropriado para a sua pessoa, porque Dona Tetê é daqueles seres humanos em cujo coração não há espaço para nada que não seja limpo, generoso e do bem. A sua casa, sempre impecavelmente arrumada, é o porto seguro para onde acorrem os que buscam o conforto de uma palavra amiga, de um conselho oportuno ou ao menos de um ouvido atento e solidário. Na simplicidade de uma vida toda transcorrida em meio aos afazeres domésticos, nos limites das paredes do seu lar, e sem nunca ter estudado formalmente, possui, contudo, a sabedoria de quem soube aprender cada lição que a longa existência lhe propiciou, e no silêncio das suas orações diárias foi edificando um modo todo peculiar de ser e de estar no mundo, brindando o nosso meio com a sua presença luminosa e leve. Amante das plantas, especialmente das flores, o seu jardim sempre foi o reflexo fiel da sua própria personalidade, encantando os olhos e alegrando a alma de quantos sentem o seu perfume e admiram a sua profusão de cores. A história de um povo não é feita somente das grandes obras, dos feitos heroicos e grandiosos de quem se destaca por seu poder, por sua inteligência ou por sua riqueza. Ela se constrói também ? e principalmente ? na singeleza das vidas quase obscuras, que poucos passos dão além da soleira da sua porta, mas que carregam consigo uma força extraordinária, capaz de marcar o destino de quem lhe cruza o caminho, embora muitas vezes nem se apercebam disso. Dona Tetê é uma dessas pessoas. Natural de Anadia, chegou a Murici há mais de 60 anos, recém-casada com Mestre Bráulio. Fincou as suas raízes, criou os filhos, recebeu os netos e hoje brinca com os bisnetos, sendo para todos uma referência de como se portar semeando bondade e alegria. Nas visitas frequentes que eu lhe faço, nunca saio da sua cozinha sem um pacote de broas ou um pote do doce que ela prepara como ninguém; mas o que dá mesmo sabor ao meu dia, quando eu passo por lá, é a sua prosa gostosa, a sua voz mansa e a sua companhia estimulante, que me fazem crer que algum encanto ainda deve existir num mundo capaz de produzir pessoas como ela.