Opinião
Sanfona, zabumba e triângulo
A repetitiva e chata campanha da Globo, chamada ?Que Brasil você quer para o futuro?, convenhamos, é extremamente cansativa. Não atingiu seu ?objetivo?, virou meme, motivo de piada nas redes sociais e rodas de amigos. Zero de conteúdo e consistência nas mensagens em vídeo com o tal celular deitado. Haja paciência! Num País que vive uma interminável crise política dominada pela onda do ódio às vésperas de uma eleição presidencial, os infortúnios candidatos líderes causam apreensão e horror aos eleitores. Por sua vez, a poderosa rede de comunicação poderia exercer um papel diferente de conciliar e conscientizar. Abrir debates sérios para discutir o delicado momento, educar a população para a importância do exercício da cidadania, não o faz. O povo sabe o que quer para o futuro, só que continua em berço esplêndido sem criar os meios necessários para promover a grande revolução da verdadeira mudança. Por isso mesmo os mais corruptos dizem em alto e bom som: ?O Congresso continuará o mesmo, serão pouquíssimas as mudanças nessas eleições?. O povo precisa de escola, hospitais e atendimento médico decentes; precisa de emprego. Precisa de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento socioeconômico. Já basta de ?mimimi?. A humilde gente brasileira anseia por representantes em que possa confiar o voto e ter certeza de que a recompensa voltará com benefícios para a sociedade. Desde o seu tempo, o antropólogo e educador Darcy Ribeiro já fazia o alerta para tão graves problemas nacionais, que pouco ou quase nada mudaram. Suas manifestações públicas continuam atuais, isso para não dizer que o país de ontem não é tão diferente de hoje, senão vejamos: ?O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Ultimamente a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrina. A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações?, conclui o escritor ? sim, um gigante sistema de comunicação de massa impondo mudanças radicais nas tradições da música, cultura e no folclore do Nordeste. Nossa festa junina, que é o maior expoente das manifestações populares está se transformando em espetáculo coreográfico, rico em moda fashion e adereços muito próximos dos desfiles de escola de samba da Sapucaí, distante das nossas raízes. Não consigo enxergar com boa vontade essa imposição em mudar a originalidade das tradicionais festas de São João e São Pedro, descaracterizando nossa identidade da cultura popular. Difícil imaginar ver nossos talentos compositores e forrozeiros sem espaço para trabalharem nas festas juninas. Forró sem sanfona, triângulo e zabumba é como samba enredo sem cuíca, tamborim e reco-reco. Milho assado na fogueira, pamonha e canjica sem quadrilha autêntica e arrasta-pé não têm sabor. O nordestino, além do voto, precisa saber defender suas raízes e tradições. Não pode entregar sua riqueza cultural ao bel-prazer de qualquer forasteiro.