loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Chuva no telhado

Ouvir
Compartilhar

Entra o mês de julho, e com ele o barulho da chuva no telhado ? telhado mesmo, de caibros e ripas aparentes, sem forro nem laje ? é uma das lembranças mais fortes do inverno na minha infância, junto com o cheiro de terra molhada e o canto das cigarras logo que a tardezinha caía. Na verdade, nem era mesmo barulho, no sentido propriamente dito da palavra, mas um som que chegava aos meus ouvidos como a melodia que anunciava o início de um tempo gostoso e aconchegante. Inverno, em Murici, era sinônimo de chuva, muita chuva, e também de frio, muito frio, principalmente em casas como a minha, na beira do Mundaú. E eu, habitualmente calorento, somente naqueles dias usava um pijama de lã com mangas compridas, calçava meias de algodão e me enfiava debaixo da colcha de retalhos, agarrado aos meus gibis e esperando o chá quente que logo me seria trazido por Maria Beí, numa xícara branca de asa quebrada com a estampa de uns cisnes que, aos meus olhos infantis, eram os patos que brincavam na lama do quintal de Seu Horácio da venda. Ali, agasalhado pelas cobertas e aquecido pelo afeto dos gestos avoengos, o meu coração se protegia dos trovões e dos relâmpagos e as minhas narinas se enchiam do aroma das sopas que fumegavam no velho fogão de brasa na porta do quintal. Na sarjeta da minha rua, a água corria velozmente para dobrar a esquina da ponte, e era uma folia quando nos deitávamos contra a correnteza para sentirmos a sua massagem gostosa em nossa cabeça ? escondidos de nossas mães, é claro, sempre vigilantes para que não contraíssemos nenhuma doença ou nos machucássemos com os galhos, ossos e pedregulhos que eram arrastados em nossa direção. Melhor ainda era banharmo-nos na biqueira das casas, a tubulação de zinco fazendo as vezes de uma cachoeira improvisada e derramando sobre nós lagartixas, folhas, insetos e penas. Correr de bicicleta no calçamento de paralelepípedos molhados era uma aventura à parte: os pneus deslizavam, os freios não obedeciam e os meninos mais espertos (eu nunca fui um deles) davam rabeadas que arrancavam aplausos e gritos dos colegas eufóricos. As pingueiras atrapalhavam um pouco a hora de dormir, mas era coisa sem grande importância. Vó Zarele espalhava papeiros e baldes pela casa toda, e a sinfonia das gotas caindo uma a uma não me deixava agarrar no sono, eu que já padecia da insônia que me castigou até a adolescência. Lá fora o vento soprava baixinho, balançando de leve as portas com tramelas e os postigos pelos quais a água escorria para alagar a sala toda. Por entre lençóis imaculados, a noite encharcada ninava os meus sonhos com gosto de bem-querer.

Relacionadas