Opinião
Razões de Estado e Capital
O decano dos jornalistas norte-americanos Gay Talese afirmou: ?O politicamente correto é tão opressivo e tão ditatorial... é a ideia da (falsa) virtude. E a pior coisa do mundo é a (falsa) virtude. É a justiça desses novos crentes. Caso contrário és um infiel, e deve-se matar o infiel. E tem que se seguir um certo código de conduta e ter uma atitude ortodoxa, sem poder desviar um mínimo?. Dias atrás um dos veículos on-line da grande mídia publicou: às vezes uma fake news, notícia falsa, é incontornável, mesmo que contrarie o fato real. Ou seja, às vezes, é melhor a mentira que a verdade. Que isso tenha se tornado uma rotina na mídia global é algo óbvio, mas que tenha adquirido conceito normativo é a pós-verdade, a pós-História. Mas não se deve ficar surpreso com tais afirmações, elas representam hoje as razões de certos estados nações, combinadas com as do grande capital, do rentismo predador. Em certo sentido o politicamente correto é sucedâneo das formulações na Guerra Fria, mesmo que diferente dos argumentos utilizados durante aquele período. Mas ele tem a função de substituir um certo vazio deixado pela chamada Guerra Ideológica da época, arregimentando ativistas de setores médios em função de certas causas, como no politicamente correto, com vistas a preencher um deserto de ideologias que foram determinantes entre 1945 e 1989, no século XX. O professor Viriato Soromenho Marques, da Universidade de Lisboa, diz que Charles de Gaulle, líder da resistência na 2ª Guerra Mundial e presidente francês, afirmou que a Guerra Fria, inclusive a ideológica, só podia ser entendida considerando os interesses de Estado da ex-URSS e dos EUA à época. E que, para tanto, afirma Viriato, é necessário entender as teses de Carl von Clausewitz em seu clássico Da Guerra, cuja essência está em quatro formulações: 1- Os sujeitos da guerra moderna são os Estados dotados de interesses potencialmente idênticos. 2- A guerra é a continuação da política por outros meios. 3- O objetivo da guerra é a vitória que se atinge quando se impõe a nossa vontade política ao inimigo. 4- A vitória implica, geralmente, a destruição militar do inimigo. Os conceitos de Clausewitz continuam atuais, embora o mundo tenha mudado, até porque a Guerra Fria adquiriu hoje as novas formas da Guerra Híbrida.