Opinião
Vovó Valentina
Há dias em que nos envolvemos de lembranças das pessoas queridas que transitaram ao nosso derredor, nos cercaram de bondade e já partiram para o outro lado da vida. Vou registrando em cada página, em cada cantinho do meu ser, as grandes amizades jamais diluídas pelo tempo, o carinho, os prêmios delas recebidos em forma de afagos, orações, ou simplesmente uma flor ofertada com carinho. Assim, lembrei-me hoje de você, minha velhinha humilde, quase santa e que foi capaz de espalhar o bem. Naquela época, na inesquecível Viçosa, pertencia eu à Associação Luiza de Marillac, onde atuava como secretária. Adotávamos anciãos abandonados como avós, cercando-lhes de amor e abnegação. Você habitava em uma casinha de taipa, com apenas uma porta e uma janela de frente, outra nos fundos onde se avistava um quintal afunilado. Todas em estado precário, divididas ao meio, confeccionadas com velhas tábuas, doadas por comerciantes caridosos. Ficava situada num terreno elevado, no final da rua onde residia nossa família, construída de taipa, sem calçada, cujos degraus eram feitos do próprio barro que servia também de piso, mas que exalava perfume e bênçãos. Para alcançar a sua casinha branca, subíamos aquela ribanceira com o devido cuidado, principalmente quando as águas do inverno umedeciam totalmente o chão. Seu pequenino lar era invejavelmente asseado, cujos móveis constavam de dois bancos rústicos, uma mesa de pequeno porte, uma cama com colchão de capim seco, uma mala surrada e um fogão de lenha em plena decadência. Neste momento, como em tantos outros, lembro-me perfeitamente de você: trôpega, exageradamente corcunda, franzina, lúcida, educada e cristã, sobretudo fiel às leis de Deus. Possuíra uma única filha que falecera de câncer há alguns anos, passando a ser completamente só. Vivia presa às contas de um velho rosário, dizendo: ?quando eu morrer pedirei a Deus por você, pois estarei bem perto Dele?. Chamava-me a atenção os seus lenções e panos de prato confeccionados de sacos, de intensa brancura, causando admiração àqueles que os manuseava. Para lavá-los e às suas vestimentas, descia as escadas decadentes que constituíam a rampa da sua casa, indo à busca das águas do Rio Paraíba, onde os ensaboava, convidando os raios de sol para clareá-los até o ponto máximo. Um belo dia, recebi um deles de presente, enquanto ouvia a sua voz ofegante e quase sumida: ?Minha netinha, não tenho nada para lhe oferecer, mas guarde este pano de prato para lembrar-se sempre de mim!?. Certa vez lhe perguntara como poderia avistar o céu assim, tão curvada, olhando apenas para o chão. Respondeu-me de imediato: ?Para ver o céu, minha netinha, tenho que deitar-me, fechar os olhos e imaginá-lo?! Hoje recordando passo a passo a nossa convivência, quando você participava da minha vida integralmente, da minha alimentação repartida com você e ofertada com amor, entregue em suas mãos ao passar por sua casa, por mais apressada que estivesse, simplesmente, tento conter as lágrimas. E você cumpriu fielmente as suas palavras, inesquecível vovó, pois o futuro me cobriu de bênçãos, desfruto de uma felicidade vinda dos céus. Obrigada, minha querida Vovó Valentina!