Opinião
Calabar, um visionário
Recentemente, tive oportunidade de participar, em Porto Calvo, integrando o conselho de sentença, do julgamento de Domingos Fernandes Calabar, um evento, considerado inusitado, devido ao simbolismo do ato comemorativo dos 383 anos do seu enforcamento e esquartejamento naquela cidade. Frente a frente, o advogado de defesa, Ney Pirauá, e o procurador de justiça Geraldo Magela como acusador. Brilhantemente ambos externaram suas teses, na expectativa de convencer cada um do júri, os quais, posteriormente, por meio de seus votos, subsidiariam o Juiz Ney Alcântara na formulação da sentença final. Recordo minha infância, em sala de aula, quando aprendi haver sido Calabar um traidor do Brasil. Com o passar dos anos, tais teses foram, paulatinamente, sendo modificadas, para, finalmente, durante o evento ocorrido no domingo 22 de julho, chegar à conclusão, fortalecendo a certeza de meu sufrágio ser balizado na análise do comportamento humano, em um tempo em que a lei e a ordem existiam de forma acanhada. Ser herói ou vilão era o de menor interesse, pois vivia-se em uma terra sem donos. Assim escolhi, conscientemente, votar haver sido Calabar, acima de tudo, um visionário, nunca traidor do Brasil, quando, em 1635, optou pelos holandeses em detrimento dos portugueses. Descoberto em 1500, o território brasileiro permaneceu em completo abandono até o ano de 1808, quando a corte portuguesa aqui chegou, fugindo de um possível ataque de Napoleão Bonaparte às terras lusitanas. Neste período, os descendentes de Pedro Álvares Cabral mais se preocupavam com pilhagem de pedras preciosas, madeiras de lei e outras riquezas. Da mesma forma agiam os franceses, ingleses e neerlandeses que aqui aportavam. Calabar, por ser brasileiro, saber ler, escrever e, portanto, pensar, e não português, tinha todo o direito de escolher por qual lado lutar, tendo sido não somente um revoltoso, mas um clarividente, se antecipando à revolução histórica e liberal do Brasil. Dois anos depois de sua morte, com a chegada a Pernambuco do Conde Maurício de Nassau, tornou-se claro o desenvolvimento da região, com investimentos na infraestrutura de Recife e estabelecimento de alianças políticas com os senhores de engenho do Estado objetivando aumento na produção de açúcar, incentivo ao estudo e expansão da cultura, comprovada pela vinda de artistas e cientistas holandeses, criação do Jardim Botânico na cidade, do Museu Natural e do Zoológico, além de melhoria na qualidade dos serviços públicos na capital, investindo na coleta de lixo e nos bombeiros, estabelecendo liberdade religiosa aos cristãos, contribuindo para muitos terem a ideia de que a colonização holandesa seria melhor que a lusitana para nossa Pátria. Votei por Calabar, apesar de não considerá-lo herói, mas por entendê-lo possuidor de emoções, nunca agindo só, mas juntando-se a uma coletividade escolhida, a qual, em seu ponto de vista, seria melhor para o Brasil. Esta opção, por ser inaceitável à época, causou imensa polêmica. Uma coisa, contudo, é certa: mesmo morto, o alagoano de Porto Calvo sempre será lembrado. Nisto consiste sua eternidade!