Opinião
O barulho natural das coisas
Nunca os escutamos durante o dia, quando vozes se levantam, veículos cortam as estradas, pessoas circulam por todos os recantos executando as mais diversas atividades. A noite vem, o espetáculo do dia promove o recolhimento da maioria dos trabalhos diurnos, como se rendesse uma atenção especial a essa deusa encantada que diariamente ressurge após o refúgio do astro rei. O silêncio renasce tranquilizando o ambiente, e, enquanto perdura, vai estendendo o seu manto no ciclo em que nos encontramos, beneficiando a cada um com o descanso merecido. Nessas ocasiões, acostumei-me a ouvir o barulho emitido das coisas inanimadas, tentando reajustar o seu porte, às vezes com exibição de falhas na sua fabricação e modelos, ao se chocarem com as descargas vindas da atmosfera, proporcionando atritos agudos ou moderados naqueles seres tão acomodados, esquecidos num recanto qualquer, sem vida. Possuidores de estruturas diversificadas dos humanos formam telhados, pisos, móveis e outros, buscam acomodar-se nas suas pequeninas e imperceptíveis falhas, esticando-se, restringindo-se, desgastando-se, envelhecendo. As coisas possuem também o seu tempo de permanência aqui entre nós, por mais zelo que lhes dediquemos tentando manter o seu estado de conservação, igualmente a nós, criaturas humanas, um dia perecem, desmancham-se, caem em desuso. Desde a infância, esse barulho intermitente quase sempre me assusta, roubando-me de quando em quando o sono tão esperado, na expectativa de vivenciar sonhos e jamais pesadelos. Muitas etapas se aglomeram com o advento da noite, quando o silêncio impera como senhor absoluto, as consciências também se agitam, latejam, aplaudem e doem pelo bem ou mal que durante o dia praticamos. Adepta a comparações lógicas, interrogo quantos de nós seríamos capazes de imitar o barulho natural das coisas, buscando vida, paz, aquele sossego que se distancia cada vez mais? Há uma diversidade entre as criaturas, tal qual existe naqueles que não dispõem de vida, mas conseguem usufruir de um descanso sem interrupções e merecidos. Muitos viventes ocupam leitos de plumas, reviram-se para lá e para cá, ensopam os travesseiros de pranto, compartilham com ele o seu desespero, passando a acompanhar a trajetória desse movimento no seu eterno ritual, espalhando sons inexplicáveis e insistentes quase sempre. Os objetos não possuem existência, mas reclamam se colocados no lugar indevido e não lhe proporcionamos os cuidados necessários. Os seres humanos, acomodados em tronos ou nas calçadas rústicas, desconhecem cuidados necessários, rompem o acordo firmado com Aquele que os criou, acomodam-se em locais inadequados, não solicitam reparos, gemem na calada da noite e aguardam o dia seguinte para dar prosseguimento a uma maldade a mais. Seria mais proveitoso para esses seres humanos serem objetos ao invés de gente.