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Opinião

Brincadeiras de criança

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Vejo na Internet uma iniciativa simples, mas muito interessante, da prefeitura de Botucatu, São Paulo. Em diversas calçadas da cidade foi pintado o jogo da amarelinha, num convite quase irresistível para que as crianças saiam pinotando por entre os quadrados coloridos. Melhor ainda: as câmeras de segurança das ruas flagraram muitos adultos, alguns até mesmo homens de terno e gravata, cedendo ao apelo lúdico da infância longínqua e pulando, despreocupadamente, como se estivessem sozinhos consigo mesmos. Parece-me que hoje poucos meninos pulam avião (era assim que nós chamávamos essa brincadeira, em Murici). Talvez menos ainda joguem queimado, ximbra ou peteca, brinquem de esconde-esconde ou de pular elástico e façam caminhões com latinhas de óleo de cozinha, cujos pneus de velhas sandálias japonesas deslizavam pelas ruas de paralelepípedos com uma maciez que fazia vibrar o cordão que os puxava. No jogo de pião, os mais habilidosos faziam-no ?dormir? na palma da mão, enquanto os mais afoitos se vangloriavam de saber rachar o brinquedo do adversário, enfincando-lhe a ponteira enquanto ele rodopiava no chão. Peteca, para os da minha época, não era o objeto cheio de penas que pula de mão em mão, mas sim o que na capital chamamos de estilingue; com ela eu matei dezenas de catengas, apesar da minha fraca pontaria, mas nunca consegui acertar um passarinho sequer, principalmente quando em pleno voo. Papagaio era o nome que dávamos à pipa, feito de papel bem fininho esticado em varetas frágeis, e eu também jamais fui capaz de fazê-lo planar nos céus, e ficava morrendo de inveja dos meus amigos que realizavam tal façanha, correndo enquanto desenrolavam o novelo para lançá-lo mais alto. De carrinho de rolimã eu andei raras vezes, sempre às escondidas da minha mãe, e ainda assim sem me aventurar pela ladeira da Igreja de Santa Teresa, no Campo Grande; já naquela época não confiava muito na minha coordenação motora, que até hoje não é lá grande coisa. A guerra de mamonas era frequente, na praça da Matriz, e nos escondíamos por trás dos postes e das árvores, e subíamos e descíamos no coreto geralmente sujo e mal cuidado. Às vezes uma petecada certeira golpeava algum de nós no olho, e o choro alto da vítima fazia com que os demais corressem assustados para casa, amedrontados com o carão paterno que por certo chegaria mais tarde. Nas poucas casas que possuíam campainha ? a minha era uma delas ?, os meninos adoravam tocar e partir em desabalada carreira, ficando de longe à espreita para ver o dono chegar à porta e, não raro, chamar uns quatro palavrões pela traquinagem cometida. Uma transgressão mínima, mas que fazia a nossa adrenalina chegar às alturas.

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