Opinião
Último desejo
Do vídeo que circulou nas redes sociais mostrando o casamento de um jovem (30) paciente portador de câncer avançado entrando nas dependências do evento, muito combalido, conduzido em uma cadeira de rodas, usando uma sonda nasoentérica, todos sabem que ele partiu quatro dias depois. O que a maioria não sabe é a intensa e prolongada luta que travou pela vida, junto com a família e as pessoas que o amavam e menos ainda, quantos na mesma idade ou ainda mais jovens estão na mesma situação. Será uma luta extremamente difícil para eles, para suas famílias e para as pessoas que os amam. Muitas dessas pessoas enfermas estão perto de nós, são amigos ou parentes, mas, se pudéssemos, escaparíamos dessa situação, procuraríamos alguma coisa, qualquer coisa que nos levasse para longe de dor tão cruel e para perto de algo alegre que nos animasse. Ninguém tenha nenhuma vergonha por sentir-se mal e constrangido perante uma situação semelhante. Fugir da dor é uma coisa muito natural, quase inevitável. Nunca me esqueço do constrangimento que passei durante a realização de um importante congresso internacional de oncologia em São Paulo; o auditório gigantesco, superlotado e extasiado com os ilustres convidados estrangeiros apresentando os resultados positivos dos protocolos randomizados. E o fascínio maior era certamente a consolidação da alta tecnologia em radioterapia e as suas evidências. Ao terminar aquela magnífica mesa-redonda, o presidente anunciou que a sessão seguinte seria dedicada ao tema ?Tanatologia e a relação médico-paciente?, tendo como conferencista um consagrado professor da USP, Dr. M. Kovacs, maior autoridade nacional em convivência com pacientes terminais e na condução desses casos. Imediatamente o auditório esvaziou. Parecia que as sete pragas do Egito teriam se abatido sobre a plateia. Permaneci com uns poucos gatos pingados, desde que acredito que sempre posso aprender algo mais, e não me arrependi: em termos de cuidar do ser humano com doenças graves e em seus derradeiros labirintos da vida que se esvai, com compaixão, solidariedade e dedicação, nada naquele congresso nem em muitos outros, se aproximou daquele momento. Eis um tema tão difícil de enfrentar que La Rochefoucauld afirmava: ?O sol e a morte não podem ser olhados fixamente?. São muito desprendidas, corajosas, fortes e humanas aquelas pessoas que têm forças suficientes para acompanhar de perto e tratar pessoas que estão próximas de partir. E a Dra. Carolina Zau, que dirige o humanístico serviço de Cuidados Paliativos da Santa Casa de Maceió, no qual aquele jovem paciente e muitos outros são auxiliados a enfrentar esse derradeiro desfiladeiro com serenidade e dignidade, é uma dessas eleitas.