Opinião
Feridas expostas para o mundo
Uma das revistas médicas mais antigas e prestigiadas do mundo, o The Lancet, publicou, em julho, um artigo intitulado ?A catástrofe no sistema de saúde brasileiro está em andamento?. Os três autores, uma socióloga de Cambridge, um economista da Universidade de Massachusetts e um pesquisador da UNB começam listando ?maldades? como a PEC do teto, que congelará os gastos em saúde por 20 anos. Depois citam reduções em programas assistenciais como o Bolsa Família e o Programa Cisternas, que leva agua limpa para comunidades carentes. Juntos, esses cortes levariam a uma piora dos índices sanitários, como a mortalidade infantil. Outras medidas como a flexibilização dos gastos municipais com agentes de saúde e atenção primária já estariam causando efeitos esperados como a diminuição da cobertura vacinal e o ressurgimento de doenças como a febre amarela e o sarampo. Por fim, narra as recentes investidas dos planos de saúde para aumentar a lucratividade dos seus negócios. Eles citam apenas a tentativa de criação dos planos de saúde populares, mas poderiam incluir igualmente as recentes tentativas de tornar as coparticipações e franquias a nova norma no setor. Pela quantidade de vezes que os pesquisadores usam o verbete neoliberal é possível imaginar que não se trata de um texto técnico, muito menos politicamente neutro. A verdade é que as políticas de austeridades foram necessárias justamente por causa de tempos de gastos públicos afrouxados e da incapacidade dos governos progressistas anteriores em fazer as necessárias reformas, principalmente a da previdência. Apesar de omitir as causas, o texto acerta nos efeitos. A verdade é que desde que chegou ao poder, o Centrão perdeu a vergonha na defesa dos seus interesses escusos no SUS e escancarou de vez a porta giratória da ANS. A agência, que devia proteger os usuários, se tornou, descaradamente, a maior ameaça à saúde dos brasileiros. Às vezes, o perigo de certas inovações não é perceptível em seu conteúdo, já que planos populares, franquias e coparticipação não são soluções ruins em si, mas fica cristalino na observância de seus propositores. Se o Centrão conseguir se manter no poder, via sua marionete Geraldo Alckmin ou formando o governo com quem quer que ganhe, não precisaremos mais de estrangeiros para nos avisar que feridas abertas são portas de entrada para todo tipo de mal.