Opinião
Um falso discurso
Como já se disse: no princípio, era a Natureza. A sociedade é uma construção, um conjunto de circunstâncias herdadas, uma proteção contra o poder da natureza. Sem a sociedade, nos sentiríamos a navegar no mar tempestuoso que a Natureza é como tal. Uma das teses atuais difundidas pela agenda da globalização financeira é a volta idílica à natureza, uma vida desprovida dos descomunais esforços empreendidos pelos seres humanos, ao longo da sua existência, para vencer obstáculos tremendos em todos os ramos da sua atividade. Dessa empreitada é que surgiram as ciências. A medicina, por exemplo, é consequência direta da luta da humanidade pela sobrevivência, e hoje, quando temos medicamentos e aparelhos formidáveis nas áreas da saúde, tudo resulta da criação das mulheres e homens em defesa da vida. Em alguns momentos, a ciência enfrentou mitos e resistências dramáticas para a sua afirmação; os que se dedicavam à cura das doenças foram taxados como bruxos, os que ousaram achar que a Terra era redonda, hereges, ou blasfemos. Muitos pagaram com a própria vida pela ousadia da descoberta nas atividades científicas e tecnológicas. Hoje, em pleno século 21, há uma forte onda, imposta por uma agenda do capital financeiro, no sentido de refrear o espírito das pessoas em relação aos avanços científicos, à condição da crença em um futuro melhor associado a uma sociedade menos desigual. A agenda do capital rentista chega ao ponto de alardear catástrofes alimentares em função do crescimento populacional, espécie de alarmismo malthusiano retardado, porque a agricultura possui condições de prover as necessidades da humanidade. Já a fome, a pobreza, a degradação ambiental, como diz o ditado popular, aí as causas são outras, o buraco é mais embaixo. Mais uma vez, desejam frear, por interesses escusos, os avanços na ciência e na tecnologia. Seguramente, não as nações que precisam do desenvolvimento, da superação das desigualdades sociais. A agenda da globalização financeira também age contra os países na área social. Busca sustar, como no Brasil, um projeto nacional unificador, fabricando polarizações, tempestades de ódios difusos, desviando-os das questões centrais, fundamentais à superação dos entraves que hoje dificultam os caminhos de uma nação próspera, desenvolvida e mais justa.