Opinião
Pais (não) interrompidos
?Estou grávida!?. Quem já recebeu essa notícia como destinatário e corresponsável pelo fato anunciado poderá recordar o espanto e a felicidade experimentados. Brás Cubas às avessas, o novíssimo pai, embora inseguro do futuro, não pensa em legar a miséria, mas se regozija de inaugurar sua descendência. Para além dos argumentos ditos científicos que animam o debate judicial em torno do início da vida atualmente, fato é que, sabedor da gravidez, o homem não será pai; já se é pai! Ao chamado da paternidade, o fundo da consciência masculina não se detém em divagações sobre nascituro ou o alcance da proteção dada pelas leis aos filhos. Antecipa-se o orgulhoso varão em imaginar o sexo do bebê, a cor dos olhos, suas risadas e até os primeiros passos. ?? Escuro, papai!?. Ontem, com essas palavras, minha filha de um ano e alguns meses apontou o céu noturno e, movida pelo medo, buscou amparo em meus braços. O Dia dos Pais celebra esse vínculo transcendental de confiança e amor nascido com a primeira notícia da gravidez. Comoveu-me a fragilidade da pequena e, em tempos de debate sobre o direito ao aborto, o fato banal remeteu-me à vulnerabilidade das crianças em gestação. A bandeira dos direitos reprodutivos femininos parece sustentar ser a interrupção da gravidez decisão unilateral da gestante. Porém, na medida de seu papel na geração da família, não seria o homem também dotado do direito de decidir livre e responsavelmente sobre o destino dos filhos? Conforme preceitua a Declaração e Plataforma de Ação da Conferência Mundial Sobre a Mulher (ONU, Pequim-1995), a igualdade entre mulheres e homens no tocante às relações sexuais e à reprodução, inclusive o pleno respeito à integridade da pessoa humana, exige o respeito mútuo, o consentimento e a responsabilidade comum pelo comportamento sexual e suas consequências. Então, a discussão sobre as consequências da relação conjugal ? a nova vida gerada ? não deveria considerar a recusa do pai ao aborto? Desde cedo, a cultura ocidental repudiou a destruição dos filhos pelas mãos dos pais. Em Medeia (Eurípedes), a protagonista de mesmo nome, estimulada pelo ciúme do marido que abandonava o lar, assassina os filhos como vingança. Impotente, ao pai, Jasão, sequer é concedido o direito de prantear suas crianças e, maldizendo a esposa pelo crime, lamenta: ?arrancando-me deles (os filhos), tiraste-me a vida?. Felizmente, os exemplos das tragédias gregas não se disseminam na realidade. Apesar da controvérsia quanto ao preciso número de abortos clandestinos, parece ser regra a opção pela vida. Felizes os pais e mães que, diante de gravidez programada ou não, assumem seu lugar na Criação. Nesta data, brada-se um feliz dia aos homens cujos braços anseiam pela chegada de seus filhos ? pais não interrompidos.