loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Vivendo e aprendendo

Ouvir
Compartilhar

Foi em Murici, durante a minha infância, que eu aprendi a olhar para o outro como alguém que também tem a sua sabedoria. Pode não ser a dos livros, a que se adquire em anos a fio de escola, mas a dos saberes que passam de geração a geração, transmitidos de avós para netos em longas conversas na calada da noite. Uma peça de artesanato com utilidades mil, uma receita com ingredientes locais, um remédio que alivia dores em lugares onde não há postos de saúde e nem hospitais ? muita coisa que, por ser simples e sempre estar presente, muitas vezes é tida como desimportante, quando na verdade é o grande patrimônio de uma comunidade inteira, a perpetuação de uma ancestralidade valorosíssima. O quipá, aquele chapeuzinho redondo de pano que os judeus ortodoxos usam o tempo todo, serve para lembrar-nos de que tem alguém acima de nós. Nós não somos o que há de mais de alto, de mais importante no mundo; há sempre quem saiba mais de algo do que nós, quem possa nos ensinar alguma coisa, e é pena que muitos não se apercebam disso. Menino curioso e calado que fui, eu gostava de espiar Seu Zé Peixoto colando solas nos sapatos dos clientes, consertando fivelas e pondo saltos novos nos tamancos de madeira, óculos na ponta do nariz, com a precisão de um cirurgião. E de ver meu avô Zezinho Fogueteiro em sua tenda de trabalho, nu da cintura para cima, manipulando pólvora, chumbo e areia para encher traques, bombas e chuvinhas, como se fosse um alquimista que jamais lera uma página sequer de química. E assim eram também mestre Bau com a tesoura e a agulha, mestre Tonho com a navalha e o pente, mestre Bráulio com o formão e a trena, Seu Alípio com a chave de rosca e a fita adesiva e Seu João Eletricista com as peças de fio e os alicates ? todos autodidatas, que aprenderam na prática a exercer o seu ofício e o faziam com rara competência naqueles anos da década de setenta do século passado. Cada vez mais busco ouvir e ver em detrimento de falar. E, no silêncio das minhas observações cotidianas, dou-me conta da riqueza humana que orbita em nosso redor, da imensidade de talentos com os quais convivemos no cotidiano das nossas atividades mais corriqueiras; pessoas luminosas que clareiam os nossos dias, espíritos elevados que nos erguem do chão comum para fazer com que ousemos sonhar com galáxias e estrelas. Estão por aqui, ao nosso lado, muitas vezes sem que nem lhes notemos a presença benfazeja, e o nosso caminhar seria muito mais penoso se não fosse por elas nos oferecendo colo, abraço e mãos generosas.

Relacionadas