Opinião
Futuro em xeque
De acordo com estudo inédito apresentado ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), seis em cada dez crianças no Brasil vivem na pobreza. São crianças e adolescentes de até 17 anos que são monetariamente pobres ou estão privados de um ou mais direitos, como educação, informação, água, saneamento, moradia e proteção contra o trabalho infantil. O levantamento, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2015, mostra que 18 milhões de meninas e meninos, ou seja, 34,3% do total, são afetados pela pobreza monetária, vivem com menos de R$ 346 per capita por mês na zona urbana e R$ 269 na zona rural. Desses, 6 milhões, o equivalente a 11,2%, têm privação apenas de renda. Já os outros 12 milhões, ou 23,1%, além de viverem com renda insuficiente, têm um ou mais direitos negados. Também chama a atenção no estudo o fato de que o acesso aos direitos varia de acordo com o local onde moram os menores e com a cor. Meninas e meninos do meio rural são mais afetados do que os das áreas urbanas. Da mesma forma, crianças e adolescentes negros compõem a maior parte dos jovens excluídos. Essa realidade já havia sido revelada numa pesquisa realizada pela Fundação Abrinq. A instituição alerta que os números podem piorar em função da limitação de gastos imposta pela Emenda Constitucional 95, que reduziu alguns investimentos sociais. É bom lembrar que, no Brasil, dos quase 57 mil mortos por homicídios em 2016, 18,4%, ou 10,7 mil pessoas, tinham menos de 19 anos, em sua maioria jovens pobres, negros que viviam em regiões periféricas das grandes cidades. Pode-se ver, portanto, que as estatísticas da violência refletem a ausência de investimento nas políticas sociais básicas. Erradicar a pobreza extrema é um dos maiores desafios do Brasil. O País obteve avanços nesse sentido nos últimos anos, chegando a ser retirado do chamado Mapa da Fome. Entretanto, o aprofundamento da crise econômica e os cortes dos programas sociais ameaçam recolocar o Brasil nessa situação vexatória. É preciso um grande esforço do poder público, em todas as suas esferas, para garantir uma vida minimamente digna a toda a população, mais ainda a nossas crianças e adolescentes. Caso contrário, continuaremos a sacrificar as novas gerações.