Opinião
Para o lixo
Desde 1990, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulga periodicamente o Mapa da Fome no mundo, indicando em quais países há parte significativa da população ingerindo uma quantidade diária de calorias inferior ao recomendado. O Brasil permaneceu nessa situação até 2013. No ano seguinte, registrou apenas 3% de população ingerindo menos calorias que o recomendado e saiu pela primeira vez das cores avermelhadas do mapa, graças a um conjunto de políticas sociais, crescimento econômico e melhor distribuição de renda. Recentemente, entretanto, a FAO começou a alertar sobre a possibilidade de o Brasil voltar a ter a fome como um de seus problemas crônicos estruturais. Isso se deve ao baixo desempenho da economia brasileira, que agrava o desemprego, e aos cortes nos programas sociais motivados pelo ajuste fiscal. Enquanto isso, a Associação Brasileira de Supermercados divulgou ontem que os supermercados brasileiros desperdiçaram, no ano passado, o equivalente a R$ 3,9 bilhões em frutas, legumes e verduras e produtos das seções de padaria, peixaria e açougue. Na comparação com 2016, houve queda de R$ 54,2 milhões; mesmo assim, os dados impressionam. Apenas em frutas, verduras e legumes, o desperdício atingiu R$ 1,8 bilhão no ano passado, aproximadamente R$ 600 mil a mais do que em 2014. Em todo o mundo, cerca de um terço de tudo que se produz acaba na lata do lixo. Anualmente, o País descarta cerca de 41 mil toneladas de alimentos por dia, o que o coloca entre os dez principais países que mais desperdiçam comida. Segundo estudo da FAO, a maior parte do desperdício no País ocorre na fase pré-consumo, ou seja, no plantio e no transporte, o que normalmente se dá pela falta de tecnologia, técnicas inadequadas e pouca infraestrutura nas estradas. Além disso, cada brasileiro gera cerca de um quilo de lixo por dia, incluindo embalagens, restos de alimentos e outros materiais. Em 2013, esse volume chegou a 76 milhões de toneladas, sendo que 58% desse total são formados por lixo orgânico. Mudar essa realidade exige um esforço conjunto entre o poder público e o setor produtivo, mas também é necessária a conscientização de toda a sociedade sobre o absurdo que é desperdiçar alimentos nessa proporção, enquanto há tantas pessoas que não conseguem se alimentar dignamente.