Opinião
O valor do tempo
Em recente viagem ao interior, já perto de Olho d?Água das Flores, segui em estrada de barro buscando um vilarejo conhecido no município. Após dirigir trinta minutos, resolvi pedir informações. Enxerguei uma casinha característica da região e, sentada à porta, uma mulher catanado piolhos em uma criança no seu colo. Dona Tereza, este era seu nome, sempre pitando um cigarro de palha, respondeu rápido, como querendo se livrar de uma presença inoportuna: ?Sei, naum, seu Zé. Vorte pro asfarto e pregunte na borracharia?. Lembrei-me, então, da propaganda na TV onde um cidadão descansado, ao ser questionado por transeuntes, simplesmente os encaminha para o Posto Ipiranga. Fiz ver à doce sertaneja que retornar à BR seria perda de tempo. Ela, então, falou: ?Espere um pouco, pois meu filho está chegando e lhe dirá?. Foram dez minutos de conversa com a senhorinha, tempo suficiente para ela me passar flashes de quase toda sua vida, enquanto eu tomava um suco de graviola e dois pedaços de rapadura. Impressionante naquele monólogo, pois somente ela falava, foi a anfitriã me contar que acordava, fazia a comida dos filhos e esperava a noite chegar assistindo televisão. Sua maior preocupação, contudo, era a rapidez como os dias e as horas decorriam ultimamente. Já informado por Zequinha, o filho recém-chegado, segui adiante pelo caminho de chão batido, sem esquecer aquele encontro, principalmente devido à minha certeza quanto aos minutos voando ultimamente. As horas não parecem mais possuir 60 minutos nem as semanas sete dias. Alguma coisa deveria estar errada pois desenvolvo inúmeras atividades diariamente, em diferentes frentes de trabalho, enquanto a sertaneja Tereza, está ali, sentada, cozinhando ou pescando piolhos, e, sobretudo, praticando o que poetizou Raul Seixas, ?com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar?. Não é possível que o tempo transcorra rápido, tanto para mim, quanto para ela. A partir de então, mudei meus princípios: fazendo valer o tempo, chegando à conclusão de a vida somente parecer veloz para quem passa por ela. Vivendo intensamente, as horas demoram a acontecer, dando prazo suficiente para concretizar os compromissos assumidos, multiplicando os segundos e dando condições para se fazer tudo quanto realmente importa, sem jamais esquecer a necessidade de ser otimista, possuir visão, atitude, compromisso com seus valores e, acima de tudo, controle emocional. Sem perceber, aqueles dez minutos de proza com Dona Tereza haviam influenciado meu comportamento como pessoa.