Opinião
Um debate caolho
Nas eleições de 2014, o debate dos candidatos a presidente foi alvo de intensas críticas pela pobreza, superficialidade e limitação dos temas abordados. Boa parte da crítica chegou a batizar aquelas eleições muito mais como uma disputa de marqueteiros e seus arsenais de estereótipos e simplificações grosseiras, do que propriamente um debate entre partidos e candidatos. A mais recente ?reforma política?, feita em gotas homeopáticas e supostamente destinada a tornar o horário eleitoral mais curto e seus programas menos espetacularizados, diminuindo o papel da glamourização do marketing, será em breve colocada à prova. Todavia, o que se viu e ouviu nos primeiros embates entre os presidenciáveis não foi nada animador. Percebe-se claramente que, além da pauta obrigatória apontada pelas pesquisas que apuram o grau de insatisfação dos eleitores e que se referem às questões de desemprego, segurança, corrupção, saúde e educação, ademais daquelas pautas específicas que carregam alto teor de complexidade e passionalismo, como é o caso da reforma da previdência e da interrupção da gravidez, pouco ou nada acerca dos grandes problemas estruturais brasileiros tem vindo à tona. A pequena exceção que aqui se faz refere-se à situação conjuntural da economia e ainda assim o debate econômico se restringe a alguns mantras desse universo, a exemplo do tamanho do endividamento popular. No contexto de grande embaralhamento ideológico, fruto da geleia partidária que herdamos, é difícil esperar que esse cenário sofra mudanças significativas. E assim a discussão sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para definir a inserção soberana do Brasil no contexto da globalização ficará mais uma vez adiada. Como adiadas ficarão as discussões sobre a hegemonia do transporte rodoviário, que inviabiliza nossas cidades; o modelo agrícola extensivo, que compromete os biomas e a água; a matriz energética, que despreza as energias alternativas; o atraso científico e tecnológico do País, a política externa desfocada e o debate sobre o regime presidencialista, uma excrescência que nenhuma reforma política, por melhor que seja, poderá revigorar.