Opinião
Quando médico adoece...
Todo médico é onipotente. Tem certeza que não adoecerá nunca. Caberá a ele, apenas, cuidar das pessoas que o procuram, sustentado pela origem grega do significado da palavra medicina: posso prestar ajuda! Até que um dia eles também adoecem. São humanos. E se veem frágeis, sem autonomia pessoal. Tudo depende do que outros decidirem: os outros doutoreees!!! Todo médico devia, vez por outra, adoecer. Para sentir o outro lado: o estar doente. E descer da onipotência do discurso médico. Até a natureza ironiza os médicos: doença em médico, em suas mulheres ou filhos de médico é sempre um desafio, no diagnóstico, no tratamento ou nas complicações. Por isso, chamada ?Esmeraldite?(a cor verde da medicina). Já procura o colega de profissão medicado por si próprio ou com um diagnóstico. Médico doente é péssimo paciente: rebelde, se automedica, camufla os sintomas. Assim que vê um sinal escuro na pele, conclui logo: apenas um sinal. Passa o tempo e, quando alerta, descobre que virou um câncer disseminado. Como conhece a evolução das doenças, tem medo. Muitas vezes, morre do que faz: um cirurgião, de doença cirúrgica; um oncologista, de câncer; um médico do digestório, de inflamação no pâncreas. Médico doente tem três características: não segue prescrição médica, adora consulta improvisada no corredor do hospital e é desconfiado em excesso com o tratamento que seus colegas determinaram. Às vezes, superdimensiona seus males. Médico também não se cuida, esquece de si, na vida atribulada de recuperar a saúde dos seus doentes, por plantões, hospitais e consultórios. Vale o adágio: ?em casa de ferreiro, o espeto é de pau?. No fim de semana com a família, ocasião tão rara, que quando acontece se sente vagabundo. Se o médico adoece e precisa de uma UTI, considera uma descida aos infernos. Por que as pessoas escolhem ser médico, não se sabe. Ter a dor como ofício ? por quê? Escolher viver entre a dor, estudar a vida inteira e estar sempre disponível a prestar ajuda, à compaixão. O estresse da vida de outrem sob sua responsabilidade, ou das estruturas que não podem ser lesadas nas cirurgias, porque podem aniquilar uma vida. Então, médico doente é igual ao imperador romano Adriano em sua doença incurável (Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar), se equivale a um mendigo, ao ser humano mais humilde: todos se igualam na fragilidade ontológica do ser humano ao adoecer. Quando médico adoece, se conecta de fato com o que é estar doente, e, por isso, Sêneca, o filósofo, já tinha definido no século I: ?médicos que adoeceram curam melhor seus doentes?!