Opinião
O anel
Era meado de 1972, junho, quase terceira semana, no centro do comércio de Aracaju, a gente, eu e alguns amigos, tínhamos ido fazer um lanche, almoçar, sei lá! Algumas dessas tralhas. Quando, incidental, passei por uma joalharia, cuja vitrine mostrava um anel bem interessante. Como sempre fui um voyeur de vitrine, parei e fiquei um decimal de tempo, nesses instantes que o tempo fica ao largo, parece que fisicamente não passa. A moçada que estava comigo chiou horrores ? vamos, tá na hora!!! E eu, fisgado pelo lado lúdico daquela joia, mandei a moçada andar. Quando fiquei sozinho, resolvi entrar na loja. Logo, logo, uma das vendedoras, que já tinha percebido o meu interesse em algumas das joias expostas, sem, no entanto, saber qual daquelas, especificamente, estava eu interessado. Voyeur sempre só olha, quase nunca vai além disso, completa-se com o ato de olhar somente. O voyeur de vitrine é pior: olha, olha e não compra nada. A vendedora deve ter percebido isso, pois a abordagem veio carregada de desdém: o senhor está interessado em qual produto? Sem pestanejar, de supetão, falei! Aquele ali, aquele com a pedra azul. Nesse instante, antes que a vendedora sequer se movesse, surgiu um senhor, talvez gerente, talvez dono, que, intimorato, deixou fluir seu lado mascate, e deitou lábia. Ordenou que a moçoila vendedora, de imediato, trouxesse não só a joia solicitada mas algumas outras. O cara, pela expertise de mercado persa, farejou uma venda quase concretizada que adornou com uma conversa de cerca-lourenço devastadora. Mas isso nem precisava, o anel já tinha me magnetizado. Mesmo assim, o embate foi árduo, loas para cá, loas de volta, preço posto, preço pechinchado, uma briga cruenta. Até que, no dado instante, o mascate tocou a alma, leve será para a vida toda e ela, a sua namorada, vai adorar. Parei um pouco, peguei nas mãos o anel, coisa que não tinha feito até então, e disse: ?embalagem para presente?. Não me recordo quanto custou, mas devo ter parcelado. Este anel deve ter sido a primeira joia de valor que presenteei à Maria. Escusado dizer que ela fez um sucesso para a vida toda. A Maria adorava. No desenlace, foi uma das coisas pessoais dela que ficou comigo. Ele, o anel de pedra azul, e uma pulseira. Hoje, ela teria 68 anos, mas não mais está entre nós, virou um espírito de luz.