Opinião
Solidariedade e política no reino animal
Na estrada um imprevisto me chamou a atenção, apesar de ser algo comum no dia a dia. Parei para observar, já que nada havia a fazer diante daquele episódio numa curva perigosa. Mais arriscado descer do carro naquela pista do litoral norte, sempre uma ameaça previsível de súbita abordagem marginal. Os bandidos estão impondo terror no asfalto e na invasão de casas até de autoridades, ameaçando, roubando e espancando cidadãos trabalhadores. Tá feia a coisa, assustadora mesmo! O fato é que um pequeno macaco nosso conhecido saguim, cujo habitat está em todas as regiões, inclusive urbana, tentou atravessar o asfalto e para sua infelicidade foi atropelado. Não morreu de imediato, ficou saltitando, gritando desesperadamente. Logo surge um bando de companheiros, uns dez pelo menos que, em evidente desespero, tentaram socorrer o coleguinha ou familiar. Provavelmente fosse uma família. A cada automóvel que passava corriam para à margem pulando aos berros como a pedir ?pelo amor de Deus? que não machucassem mais o moribundo. O agitado vai e vem do trânsito em poucos segundos esmagou o animalzinho, era inevitável, para a completa desilusão do grupo que por algum tempo ainda tentou retirar o corpinho do local emitindo um ruído de profundo lamento. Acho que choravam copiosamente. Impossível removê-lo dali; o fluxo de veículos não permitia que concretizassem seu desejo, corriam o risco de morte coletiva e são inteligentes o suficiente para entenderem isso. Não sei quanto tempo ficaram por lá compartilhando o sofrimento, afinal tinha que seguir viagem e não poderiam ficar aguardando aquele trágico desfecho. A dor por eles sentida entristeceu-me também, aguçando-me a curiosidade de pesquisar um pouco sobre comportamento e o espírito solidário de algumas espécies animais. Li coisas maravilhosas, atitudes surpreendentes, não apenas entre os primatas das várias etnias, mas igualmente de outras espécies, como os elefantes, considerados modelos para o estudo dos sentimentos animais. Quando um deles morre, os outros fazem verdadeiros rituais fúnebres, formando círculo em torno do cadáver, depositando folhas e galhos, enquanto choram. Li também que os chipanzés, entre as suas várias espécies, têm, sim, um espirito solidário. Se amam e são unidos em defesa dos seus grupos. São igualmente ambiciosos, espertos o suficiente em prol dos interesses individuais e como ?bons políticos? praticam trapaças e corrupção. Segundo o primatologista holandês Franz De Waal, em seu livro Política dos Chipanzés, quando da ?eleição? do macho alfa, líder aclamado pelo grupo, os concorrentes fazem aliança, cortejam, protestam, conspiram, manipulam. Próximo ao ?pleito?, os mais poderosos corrompem os fracos oferecendo bananas e outras guloseimas. Usam bem a estratégia do populismo tão comum aos humanos no universo humano. Os líderes chipanzés, para se manterem no poder e defender privilégios, tornam-se arbitrários, manipuladores; desenvolvem técnica própria para disseminar mentiras na comunicação convencendo os incautos de que são perseguidos, vítimas dos opositores. Na selva, a macacada plebeia também é refém do poder e dos embusteiros de carteirinha, e qualquer semelhança com outras sociedades é apenas mera consciência.