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Opinião

Um bioma do futuro

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Para marcar os 70 anos de sua existência, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) publicou neste ano de 2018 o Atlas das Caatingas, o único bioma exclusivamente brasileiro. Em cooperação com outras instituições, notadamente a Universidade Federal de Campina Grande, foi produzida uma bela obra que, além de texto primoroso, brinda o leitor com mapas, fotos, imagens de satélites e levantamentos florísticos de áreas pesquisadas em 14 unidades federais de conservação. Apesar dos desmatamentos já terem chegado a 46% de sua área original, o bioma da Caatinga, também atingido duramente por incêndios, atividades irregulares de mineração, crescimento urbano desordenado, caça predatória, tráfico de animais e outras mazelas, ainda ostenta uma notável biodiversidade com suas 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 241 de peixes, 221 de abelhas e 79 de anfíbios, sem falar de sua originalíssima cobertura vegetal, apesar das alterações que já impactam 80% de sua extensão. Iniciativas como essa da Fundaj e seus parceiros institucionais merecem todo o nosso aplauso e esforço de divulgação porque se trata de material que contribui para combater uma das maiores, senão a maior das ameaças à Caatinga, qual seja a dolorosa ignorância que o País, a começar pelo poder público, demonstra em relação a esse patrimônio inigualável e ativo estratégico do Brasil. Inserido no semiárido brasileiro em área de ocorrência que se aproxima de quase 1 milhão de quilômetros quadrados, onde vive uma população de 27 milhões de pessoas conforme dados do último censo, o bioma da Caatinga, bem como sua área de inserção, sempre foram historicamente vítimas de ideias preconceituosas dirigidas a seus viventes mas que se estendem curiosamente à própria vegetação e ao meio geográfico, tratados pelo Estado brasileiro e suas forças dominantes como ?terra seca de mato seco? supostamente inviável para os grandes objetivos do desenvolvimento nacional. Se para o vasto território brasileiro nossas chamadas elites até hoje foram incapazes de formular um projeto nacional duradouro com possibilidades de produzir um grau elevado de coesão político-social, para o semiárido essa ausência de pensamento estratégico é ainda mais danosa. E, assim, essa região singularíssima e seu maravilhoso bioma ficam eternamente condenados à degradação e ao atraso em todas as suas facetas, muito embora possua grande potencial de desenvolvimento sustentável, tudo dependendo da abordagem correta que se faça dessa potencialidade. Ocupado por uma população criativa, com enorme poder de resiliência ao meio adverso, detentor de grandes perspectivas em energia solar e eólica, inteiramente apto à construção de satisfatória segurança hídrica, desde que haja investimentos sérios na gestão sustentável de suas águas, e possuidor de recursos naturais variados, o semiárido não pode ser relegado ao abandono principalmente no que diz respeito à Caatinga, que pode nos revelar espécies vegetais valiosas para adaptação ao século do aquecimento global, para a pesquisa de fármacos e substâncias cosméticas, além de um sem-fim de outras utilidades que fazem dela uma joia brasileira.

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