Opinião
Graciliano e a jangada da Pajuçara
Eis que em recanto privilegiado da orla da Ponta Verde foi inaugurado o monumento que, em forma de jangada, homenageia os quatro jangadeiros alagoanos que, na década de 1920, cumpriram a desafiadora missão de, saindo de Jaraguá, tal qual os bravos companheiros da Odisseia de Ulisses, superaram imensas provações para chegar ao Rio de Janeiro. Extraordinário fato com ampla repercussão nacional. Inicialmente, estranhei o compartilhamento daquele espaço com Graciliano Ramos e seu cigarro Selma, um homem seco e agrestino, tanto de temperamento quanto no ambiente sertanejo no qual viveu e se inspirou para criar a sua imortal obra. Contudo, Mestre Graça teve a sua convivência com o oceano relatada em Viagens-28, de 1936, quando narra sua ingrata saga no porão do navio Manaus, no trajeto de Recife para o Rio de Janeiro. Naquele porão insalubre, muitos foram os seus padecimentos, somente aliviados pelo canto do sambista Paulo Pinto, companheiro de infortúnio junto aos muitos padecentes comprimidos naquele inferno. Graciliano tem sido lembrado atualmente pela grande imprensa nacional não somente por sua obra, mas, principalmente, pelo exemplo de homem público de irretocável caráter e retífica conduta na gestão da coisa pública, práticas que se tornaram conhecidas quando o seu relatório de gestão de Palmeira dos Índios tornou-se público, iniciando ali o seu imorredouro trajeto literário. Homem notoriamente de esquerda, membro atuante do Partido Comunista, o que o levou à injustificável prisão na Ilha Grande pela ditadura Vargas, todavia, no registro daquele padecimento, em sua obra Memórias do Cárcere, demonstrou o seu superior altruísmo, quando escreveu: ?Desejo de ir além das aparências; tentar descobrir nas pessoas qualquer coisa imperceptível aos sentidos comuns. Compreensão de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos?. Seu testemunho como cidadão que venceu gigantescas atrocidades, possuidor de convicções políticas consolidadas, mas, aberto ao contraditório, o auxiliaram a superar mágoas e rancores relativos a seus algozes. Exemplo que serviria excelentemente para serenar os ânimos de uma campanha eleitoral radicalizada e polarizada por líderes das pesquisas que apontam saídas autoritárias para resolver antagonismos que só o Estado de Direito e a democracia plena e civilizada têm possibilidades de fazê-lo. A proximidade de Graciliano com a jangada e seus bravos jangadeiros está plenamente justificada. Foram alagoanos e brasileiros exemplares na força de sua fibra e na superação de imensas adversidades, sem jamais perder o senso de somar esforços nessa tentativa, e na convivência civilizada e tolerante com os contrários que os antagonizavam. Um exemplo concreto a ser seguido.