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Quando se perde um museu nacional

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Os museus são, por sua natureza, os guardiões da história. Qualquer que seja a tipologia de seu acervo, não existe peça de maior ou menor valor. Existe a condição irreparável para sua substituição. Queimou, perdeu. Igual à Taça Jules Rimet, cujo ouro foi derretido. Qualquer outra é mera réplica. Só a perdida andou o mundo inteiro e foi segurada pelos maiores jogadores de futebol do mundo. E esse é o valor maior que se agrega a qualquer acervo: a sua história. Quem está vivo lembra o dia 8 de julho de 1978, quando um incêndio de grandes proporções destruiu 90% do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e a credibilidade do País de manter exposições. Na época, estava montada uma mostra do artista uruguaio Torres Garcia, totalmente destruída. Foram-se obras de Picasso, Miró, Matisse, Dalí, Portinari e mais a escultura Mademoiselle Pogany II, de Constantin Brancusi. O diagnóstico final: falta de dinheiro. Da mesma forma que a falta de dinheiro motivou o grande incêndio do Museu Nacional. Não é necessário dizer que o prédio foi residência da família real e tampouco que o museu tinha completado 200 anos em 2018, nem falar dos seus 20 milhões de itens do acervo. Nada disso importa quando a história acaba da noite para o dia. Dizer que ?a tragédia poderia ser evitada?, claro que poderia. Mas será que o País está preocupado com museus? Será que nossos representantes no Congresso Nacional e no Senado estão preocupados com museus? Isso não quer dizer que em outros países não haja semelhantes tragédias. Em 4 de novembro de 1966, depois de uma semana de chuva, a cidade de Florença se viu, em menos de 12 horas, invadida pelo Rio Arno, que transbordou e atingiu todos os monumentos vizinhos, desde a Galleria degli Ufizzi até Santa Maria del Fiori. Na Santa Croce, a água chegou aos cinco metros, destruindo diversos monumentos importantes. Porém, o mais impressionante é que, quando secou o povo florentino acorreu aos museus para entregar as peças encontradas nas ruas. Não sei se num país onde se saqueia caminhões, com o motorista morto na cabine, isso seria possível. É tudo uma questão de entender o que a cultura faz pelo país. Não tenho dúvida alguma que muitos que lamentarão essa tragédia, em horário nobre na televisão, certamente, fazendo críticas, não serão os mesmos que se locupletaram com a verba da Lei Rouanet. É claro que essa e outras tragédias ainda maiores poderiam ser evitadas se o Brasil fosse um país que respeitasse a sua própria história.

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