Opinião
Cacá Diegues um alagoano imortal
O orgulho é característico das pessoas com um elevado conceito de si mesmo, significando altivez, brio, amor próprio exagerado e soberba. Geralmente, o portador de tal sentimento sente-se importante demais para enaltecer as virtudes do próximo, sendo vaidoso ao extremo para reconhecer que errou e, principalmente, para perdoar. Ao contrário porém do descrito, ouso afirmar haver-me sentido extremamente orgulhoso quando, dias atrás, fui informado da eleição do alagoano Cacá Diegues para compor o quadro de imortais da Academia Brasileira de Letras e, mais feliz ainda, ao poder pessoalmente parabenizá-lo por sua merecida vitória, para sentar na cadeira outrora ocupada por Pontes de Miranda, outro nativo da Terra dos Marechais. E esta minha felicidade se robusteceu ao sentir em seu timbre de voz um sentimento de satisfação e felicidade, deixando explícito que tudo fará para enaltecer a mais importante casa das letras no Brasil. Em minha juventude, costumava frequentar a residência de Ulisses e Tereza Braga, localizada no bairro do Farol, devido à forte amizade ainda hoje mantida com Felipe, um dos filhos do casal. Cacá Diegues, àquela época, já era o primo famoso, conhecido nacionalmente como laureado diretor de inúmeros filmes, como Ganga Zumba, Xica da Silva e tantos outros, embora quando retornava a Maceió fizesse questão de permanecer na casa dos Braga, trazendo no rosto um sorriso sempre receptivo a tantos quantos, como eu, ali chegavam para conhecê-lo. O tempo passou e enquanto a cor de prata tomou conta de meus cabelos, os de Cacá Diegues em parte sumiram, embora, cada um de nós, a seu modo, caminhássemos para a frente, sempre trilhando os desígnios da literatura. Hoje, presidindo a Academia Alagoana de Letras, sinto-me feliz em ser contemporâneo da escolha de mais um alagoano para integrar a Academia Brasileira de Letras, fato motivador de alegria, estimulando nossa vaidade pela comprovação do valor intelectual e expressiva inteligência de uma grande maioria de nossos conterrâneos. Nascido em Maceió, há mais de sete décadas, Cacá migrou para o Rio de Janeiro, onde marcou presença pela criatividade e expressiva obra literária sem, contudo, jamais se distanciar de suas raízes nativas, transformando o lar que habita, como ele próprio afirma, em ?uma fortaleza alagoana cercada de cultura nordestina, por todos os lados?. Eleito para ocupar a cadeira número sete, cujo patrono é o poeta baiano Castro Alves, nosso concidadão engrandecerá a casa maior de cunho literário e linguístico do País, com a diversidade de sua vasta obra, composta de críticas e, sobretudo, filmes, fundador que é do Cinema Novo do Brasil, quando, mesmo exilado durante a revolução, continuou brilhando na Europa a ponto de merecer, na França, a Ordem das Artes e das Letras, tornando-se, inclusive, membro da Cinemateca Francesa. Sentirmos orgulho do mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras porque, para todos nós, seus conterrâneos e admiradores, Cacá Diegues é uma prova inequívoca de que a perfeição não está apenas na quantidade, mas, sobretudo, na qualidade de sua produção cultural.