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Opinião

O país que não gosta de museus

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Tenho certeza de que não fui o único brasileiro ou brasileira a dormir na noite do último domingo com um tremendo sentimento de vergonha diante do que aconteceu na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, onde labaredas imensas destruíram em poucas horas objetos valiosíssimos para nossa memória histórica e natural, além de peças de enorme valor para toda a humanidade. No dia seguinte, segunda-feira, ao lado do estarrecimento da opinião pública e das reações comovidas da população, vieram as explicações e desculpas oficiais e as promessas tardias de providências e dinheiro para recuperar o irrecuperável, além de juras solenes de adoção de medidas para que eventos como esse não voltem a se repetir expondo a Nação brasileira a vexame tão constrangedor. Lembrei-me, então, da madrugada de 27 janeiro de 2013, quando 242 rapazes e moças, cheios de vitalidade e sonhos, queimaram literalmente emparedados em uma boate do Rio Grande do Sul à raiz de negligências criminosas que até hoje permanecem impunes, seguidas por um manto de esquecimento que cobriu nossos horrores coletivos em apenas três ou quatro semanas depois do ocorrido. Depois fui juntando pedaços de lembranças, como quem organiza recortes de jornais, e voltei ao fogo das recordações ou, mais exatamente, às recordações do fogo que em 2003 destruiu a base de lançamento de foguetes, em Alcântara, no Maranhão, e em fevereiro de 2012, a Base Comandante Ferraz, na Antártida, matando especialistas renomados, atrasando projetos estratégicos, destruindo pesquisas científicas. Reavivado, dessa forma, o meu trauma pela maneira descuidada com que se trata a pesquisa científica entre nós, voltei, então, para o mundo da cultura, ou seja, para os museus, e aí a memória se atiçou muito mais e com ajuda de rápidas pesquisas saí alinhando o incêndio do Museu de Arte Moderna, em 1978, e os incêndios do Teatro Cultura Artística, de São Paulo, em 2008, do Instituto Butantan, em 2010 e, mais recentemente, do Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas Gerais e do Memorial da América Latina, em 2013, do Museu da Língua Portuguesa, em 2015, da Cinemateca Brasileira, em 2016. Até aí não havia perdido o sono. Mas quando fui me questionar sobre as causas de tanto desprezo pelos museus, voltei à nossa pesada e opressiva herança colonial, ao corporativismo doentio da nossa máquina administrativa e até a pessoas influentes que, em todos os escalões do poder público e privado, se vangloriam da própria ignorância e continuam tratando a ciência, a memória brasileira e a cultura como as filhas mais enjeitadas de todos os orçamentos.

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