Opinião
Influenciadores digitais sem carne e osso
Parece meio estranho esse título, mas foi para tentar justificar a presença de influenciadores nas mídias sociais que têm feito bastante sucesso e que não existem ?em carne e osso?. São virtuais e não reais? O fato é que existem criações humanas de pessoas digitais que têm chamado a atenção, confundindo muitos indivíduos, rendendo bons resultados financeiros aos seus idealizadores e sendo responsáveis inclusive por influenciar milhares e milhares de pessoas. É o caso da modelo Shudu, negra, bela, criada pelo fotógrafo britânico Cameron-James Wilson e que nos primeiros momentos em que aparecia no Instagram não tinha sua identidade-verdade ainda revelada. Resultado: milhares de pessoas passaram a segui-la imaginando ser uma nova top model e só depois de uma reportagem em uma revista americana tornou-se público que Shudu era verdadeira somente no ciberespaço. Um outro fenômeno é Miquela, a qual possui uma conta no Instagram identificada com @lilmiquela e que em seu conjunto fotográfico chega a esnobar vestida com roupas de marcas caras, tais como Chanel e Prada. Uma jovem que parece adolescente no seu jeito, canta e é engajada em causas sociais. Muitas empresas agora a disputam querendo vê-la como sua ?garota propaganda?. A manequim virtual já tem mais de 1,4 milhões de seguidores (setembro de 2018). Analisar realidades como essa é um modo de refletirmos sobre como o mundo virtual está em sincronia com o real. Vários teóricos da comunicação defendem que não existe mais a necessidade de fazermos uma separação destes dois mundos, pois o ?virtual?, desde o seu bojo existencial, já possui sua incidência nas vidas das pessoas e por isso é ?real?. Nestes casos acimas apresentados, as supermodelos existem e não existem; e por isso fascinam tanto. Contudo, ficam algumas perguntas? Por que elas conseguem atrair tanto? É pelo fato de se apresentarem como perfeitas? De serem tão ideais que se tornam objeto de desejo de todos? Acredito que a influência se deve ao fato de estas serem um ?avatar humano?, ou seja, aparecem como expressões de nós mesmos e, por isso, de uma forma ou de outra ocorre uma identificação. Assim acontece quando temos um bom livro e ficamos por vezes aficionados às personagens. Quando li Os Irmãos Karamazov, me identificava com cada um do enredo, pela maestria da descrição das inquietudes e pensamentos humanos expostos por Dostoiévsk. Qual seria a diferença então deste escritor russo para com os criadores de Shudu e Miquela? Sem querer dar respostas, concluo somente colocando que muito gira em torno do ideal e do real; ambiências que acompanham o ser humano desde a sua criação. E estas muitas vezes não chegam a se confundir como acontece com o virtual.