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Opinião

Corre-bicho e quejandos

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Criança ainda, eu tinha muito medo da Marinete, uma pobre mulher que frequentemente ia pedir um trocadinho à dona Lenira. Diziam em Murici que ela corria bicho, como castigo por ter dado um tapa no rosto da própria mãe, e muitos asseveravam tê-la visto se espojando na beira do Mundaú, qual se fosse um porco barrão, nas noites de lua cheia. O fato é que quando ela chegava à porta da minha casa, maltrapilha e com um pano encardido enrolado à cabeça, eu olhava logo para as suas unhas grandes e sujas e corria para junto da minha avó, enquanto mamãe generosamente lhe dava qualquer coisa para aliviar a fome. Amarela e inchada de cachaça, com apenas dois ou três dentes sobressaindo na boca murcha, era digna de pena, nunca do pavor que despertava em mim e nos outros meninos. Ela morreu moça, e contavam que quando foram desenterrá-la para dar lugar a outro cadáver, muitos anos depois, o esqueleto conservava intacta a mão amaldiçoada, preta e ressequida, prova inconteste da ira dos céus pelo ato praticado. Havia também outro sujeito, morador de um sítio, que andava pra cima e pra baixo nos dias da feira com o seu lábio inferior horrivelmente crescido, um beiço grande como eu nunca mais vi em toda a minha vida. Comentavam que aquilo se dava em certas fases da lua ? sempre ela, a lua, a suscitar mistérios e crenças ?, e isso bastava para nos convencer de que ele virava lobisomem e para nos fazer fugir em desabalada carreira, tão logo ele apontava na cabeça da ponte. Muitos velhinhos da zona rural, barbados e descalços, para nós eram realmente o Papa-Figo, principalmente quando apareciam à tardinha, com um saco nas costas, no qual nós éramos capazes de imaginar fígados e corações de criancinhas desobedientes que haviam sido mortas pelo monstro. Certa feita desapareceu um amigo meu, filho de uma professora muito querida, e todos achávamos que ele tinha sido levado pelo tal velho do saco; certeza que só se dissipou dias depois, quando ele voltou são e salvo para casa após uma viagem de traquinagem que lhe rendeu uma boa surra. E tinha também a Peste, uma negra alta e magra, sempre vestida de luto, que de vez em quando zanzava pela cidade sem que ninguém lhe soubesse o nome nem onde ela morava; nós a observávamos de longe e só sossegávamos quando ela sumia das nossas vistas, no seu passo apressado e incerto. Temi sacis que nunca vi, mas que eu julgava habitarem as touceiras de bambu na margem do rio. Ouvi o assobio da Mãe da Mata nos canaviais verdejantes, atraindo para si os caçadores cruéis. Perdi muito sono pensando em almas penadas que jamais me apareceram. Hoje me metem medo a falsidade, a ingratidão e a maldade humanas. São bichos muito mais apavorantes, e nos fazem mal de verdade.

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