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Opinião

Pequenas desilusões fortalecem

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A cidade em que morava não era o berço que o acolheu quando sua mãe o trouxe para mundo. Entretanto, foi lá que viveu inesquecíveis momentos da sua abundante adolescência até alçar o voo da independência. Puro, de coração imenso e intenso, sem limites na solidariedade com o próximo. As missas dominicais, os movimentos jovens reuniam meninos e meninas, ricos e pobres, brancos, negros e um só objetivo: servir aos mais necessitados. O colégio, a blusa com o brasão da instituição marcado no peito; a calça cáqui e a tradicional faixa vermelha na lateral das pernas, tradição das boas escolas do passado, tudo era motivo de orgulho para o garotão. Apesar de nunca ter sido um aluno muito aplicado, tendo na matemática o bicho-papão no período de provas, ao fim de cada ano letivo poderia até passar pelo ?pau do canto?, porém estufava o peito por nunca ter experimentado o dissabor da repetência. Amigos e amigas de convivência diária também eram assim, orgulhosos das atividades escolares e dos professores. Gostavam uns dos outros e nada desse negócio de cada um por si. Um por todos, todos por um era o lema entre os grupos nas competições esportivas, nos belos desfiles comemorativos das datas cívicas e nas baladas noturnas. Beatles, Rolling Stones, The Fevers, Os Milionários e a Jovem Guarda faziam o embalo das festas. Doava-se para ajudar os menos favorecidos com comida, roupa e higiene nos asilos de idosos ou por onde havia necessitados, qualidades adquiridas na educação familiar e nos ensinamentos passados pelos mestres. Os alunos ouviam, aprendiam e respeitavam os educadores. Ele nutria uma grande paixão, digamos, um ardor adolescente por uma linda menina do seu círculo de amizade ? uma quase mulher ? de expressão tão cândida que a chamava de Nossa Senhora de Fátima! Nada mais que um torturante amor platônico destruído numa noite de Natal quando acabara a Missa do Galo. O coral se preparava para a tradicional caminhada pelas ruas da cidade, encantando pessoas que se emocionavam nas calçadas e janelas ao ouvirem Noite Feliz e Jingle Bell regidos pelo maestro Alfredo e interpretadas por jovens tenores, sopranos e baixos. Justo nessa madrugada surgiu a maior das surpresas: a ?deusa? desce do altar de mãos dadas com um namorado. Imagine a expressão decepcionante daquele jovem, ali, no meio da rua, flechado pela traição! Um moço de pelo menos 1,80 metros de altura, vindo da capital, elegante e bem vestido, tocou o coração da mocinha. Um Golias impossível de ser derrotado pela fé e fascínio do infortunado Davi. O amor platônico do apaixonado adolescente derreteu como gelo, transformando-se numa mera ilusão perdida no tempo, para sempre, numa ?noite infeliz? de Natal. O fracasso de um amor nunca correspondido foi o start que o acordou para entender que a vida é muito mais bela que a simples beleza de um rostinho imaculado. Perdas e desilusões fazem parte da existência humana e, quando jovens, são necessárias ao crescimento pessoal, para enxergar a vida com mais coragem para superar os constantes desafios. Inclusive no amor.

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