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Trocando a cola pela capoeira

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CLÁUDIO SEVERO * No início, imaginei que seria muito difícil conseguir o respeito e a atenção daqueles meninos e meninas de rua, já que, no primeiro dia, enquanto o coordenador do Projeto Catarse me apresentava como o introdutor de capoeira naquele programa, assisti à briga de dois jovens, por causa de uma garrafa de cola, pois um deles roubara o outro. Confesso que me choquei com o tamanho desequilíbrio de crianças entrando na adolescência, com um vício tão agressivo. Respirei fundo e intervi, num linguajar que eles entenderam ser de um mestre das ruas do Rio: ?Colé ô otários, se ainda estivessem brigando por uma gatinha, mas brigar por causa de uma merda que mata, que resseca os pulmões, seus babacas! A partir de hoje não quero mais saber disso aqui dentro, falou??. Por incrível que pareça, ele me olharam meio desconfiados, depois se olharam, riram e vieram sentar junto dos outros. A partir dali, nunca mais cheiraram cola e até hoje trabalham como sapateiros e guardadores de automóveis de um restaurante chique de Maceió, com aval do dono e simpatia dos fregueses. Um deles vai ser pai e já me convidou para ser o padrinho. Escutei muitas barbaridades que foram e ainda são feitas contra essas pobres crianças. Por exemplo: filhinhos de papai que, com o carrinho zero quilômetro irresponsavelmente emprestado pelo pai, numa madrugada, enquanto os meninos dormiam embaixo da marquise das Lojas Americanas, do Centro, pararam o carro e desceram cada um com um pau na mão e ?baixaram o cacete? nos pobres coitados, sem ter nem por quê. Outro caso bárbaro que escutei, foi quando um atravessava a rua e foi atropelado, propositadamente, por um ser desumano que, além de ter pego o pé do menino, saiu rindo da façanha de ter conseguido passar por sobre o calcanhar do menor. Com o tempo, comecei a conhecer os problemas daquelas crianças e percebi que, na verdade, elas não eram de rua, mas estavam nas ruas, por causa dos maus-tratos familiares, na maioria causados pela fome, desemprego, pai ou mãe alcóolicos, preferindo ir para as ruas. Com a prática da capoeira, começamos a fazer rodas nas principais ruas do centro, com a admiração dos transeuntes que conheciam alguns dos artistas que ali se apresentavam e elogiavam suas mudanças, passando a ser respeitados pela arte e pelo novo comportamento. Entre nós sempre havia diálogo sobre o futuro, sonhos e anseios. Era comum a todos o desejo de ser professores de capoeira e, através dela, poder passar a outros meninos de rua que, ao invés de cheirar cola, roubar ou matar era melhor ser capoeirista. Imaginem a emoção de um menino de rua (in memoriam) ? que nos deixou após uma colisão numa Kombi que transportava meninos de uma entidade do município ?, ao me procurar, indagando se pediria des-culpas ao colega de roda que estava sentado ao seu lado, por ter roubado, algum tempo atrás, seu tênis na Praça do Skate. Respondi que não, pois o menino não o tinha reconhecido e que, na verdade, o importante é que ele não faria mais aquilo e que Deus já o havia perdoado. Chorei de emoção quando ouvi seus depoimentos, sobre o que mudou, depois que conheceram a capoeira, durante as entrevistas feitas pela assistente social. Peço a Deus que um dia alguém se interesse pelo projeto que apresentei ao governo passado, com a intenção de abrir espaço no turismo, com apresentações e vendas de berimbaus, camisetas e souvenirs de capoeira que seriam confeccionados pelos próprios meninos e meninas que não tiveram a oportunidade de ser livres e autônomos. * MESTRE DE CAPOEIRA

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