Opinião
Salvar ou deixar morrer?
Em se tratando do preço de medicamentos, devemos chegar em breve a uma situação em que a segunda opção será inevitável. Em manchete do último dia 11, a Folha de São Paulo aborda a briga milionária da indústria farmacêutica norte-americana pela patente do remédio contra a hepatite C. Segundo o jornal, a fabricação genérica do produto no Brasil geraria economia ao governo de 1 bilhão de reais. A droga é o sofosbuvir, com percentual de cura em 95%. Importado, o remédio custa R$ 140,40; genérico, custaria R$ 34,80, 300% a menos. Esse é apenas um exemplo, no entanto, muitos outros medicamentos passam por situações semelhantes. Um deles é o icatibanto, fabricado na Alemanha, mas, que, da mesma forma, preso a uma patente internacional. Indicado como medicamento salvador, em caso de crise de angioedema hereditário, custa em torno de R$ 7 mil a seringa de 3 ml com 10 mg/ml, para uso único. A rivaroxabana é um anticoagulante utilizado por pessoas com histórico ou risco de trombose. Seu preço, considerando a necessidade diária de uso, é cerca de 300 reais. A varfarina, outro anticoagulante de uso muito comum, não chega a 9 reais e ainda existe genérico. Qual a diferença de um e do outro? O primeiro não exige uma dieta de vitamina k, ou seja, você pode comer à vontade alface, couve, repolho, espinafre, manjericão, pimentão verde sem o perigo de ter uma anemia. No caso da varfarina, você passa o tempo todo com o olho na lista e cada alimento diferente que lhe oferecem, pois a vitamina k reduz o efeito do medicamento e traz risco de trombose ao paciente. O autor do texto ainda é obrigado a tomar azatioprina de 50 mg, que também não é barato, para síndrome dos anticorpos anti-fosfolipídeos (SAF), uma doença autoimune e rara. No meio desse corolário, encenado pela indústria farmacêutica, estão os pacientes que precisam destes e de outros medicamentos. Dizia a Revista Exame de 18 de abril de 2017 que ?apesar da crise, a Indústria Farmacêutica aumentou em 20% as contratações e continua crescendo?. Num País onde a saúde pública é tão criticada, se salva a distribuição de medicamentos gratuitos pelos estados e municípios, caso contrário, a população morreria à míngua. Ainda pior é a situação do aposentado, que, para manter-se vivo, precisa de remédios de uso contínuo, muitos deles sem distribuição pelos SUS. Mas, quer o leitor saber quem é o maior vilão em toda essa história? O próprio governo brasileiro. O Brasil cobra em média 28% de imposto, segundo pesquisa no site da Jusbrasil, enquanto no Chile 19%, China 16%, EUA 6%, Japão 5%, Índia 4% e Rússia 0%. O que podemos dizer mais: salvar ou deixar morrer? Temos opção?