Opinião
Outras imagens de Jesus Cristo
Ao me lembrar de Jesus Cristo, não consigo formular uma imagem fixa ou tradicional, em parte por causa de um filme, o clássico eterno Ben-Hur ? produção cinematográfica de 1959, com Charlton Heston no papel principal de um judeu que se encontra algumas vezes com Jesus Cristo. Eu me recordo de ter assistido ao filme pela primeira vez com meu pai. O curioso é que ele me disse: ?Olha, filho, esse filme é muito bom. Nele aparece Jesus?. Fiquei o filme todinho esperando ver a ?face? de Cristo ? que nunca aparece. Uma cena marcante da película se passa quando Judah Ben-Hur está sendo levado às galés. Aprisionado como escrevo em pleno deserto, ele é proibido de beber água. Ao tentar saciar a sede de qualquer jeito, um centurião logo faz gesto para chicoteá-lo, e é impedido apenas pela ?presença? silenciosa de Jesus. A cena é muito bem-feita. E é nela que eu penso quando me vem à mente a luz áurea do Redentor. Os filmes a respeito de Cristo têm esse poder sobre a imaginação cristã: basta-nos uma olhada na cena do filme O Rei dos Reis (produção de 1961), no momento do Sermão da Montanha, para que nossa mente se reporte ao ator icônico Jeffrey Hunter todas as vezes em que imaginamos a face do Filho de Deus. Não há como escapar disso: o homem formula os traços da Divindade conforme os próprios aspectos físicos. ?Jesus, como personalidade histórica concreta, continua a ser um estranho à nossa época, mas o seu espírito oculto em suas palavras é conhecido pela sua simplicidade e a sua influência é direta?, escreveu o teólogo Albert Schweitzer, em A procura do Jesus Histórico. Mais importante do que ir à procura da fisionomia de Cristo, coisa praticamente impossível de a ciência conhecer, cabe ao homem se conscientizar da ?presença? do Salvador. Tê-lo pendurado num quadro no canto mais nobre da sala talvez seja algo bom, isso nos inspira segurança; sentir sua presença em cada minuto da vida, mesmo sem sabermos como seria seu semblante, é melhor ainda. Acreditar no Redentor como ser divino e real não é só uma questão de fé; é uma questão também de inteligência. Esse pensamento não só faz bem ao ser humano, como também aproxima o intelecto dos mistérios do sagrado. O que liga o homem aos céus é um mistério e estamos longe de uma consciência teórica aproximada desse assunto. Somos naturalmente limitados pela natureza humana. Mas isso, de verdade, não tem importância. Importante mesmo é acreditar em Cristo e tê-lo como exemplo de virtude e comportamento. Para quem precise de definições, imagens ou palavras para definir Jesus Cristo, existe gente que necessita dessas coisas supérfluas, ficam as palavras talvez mais expressivas sobre o Unigênito, ditas pelo poeta pré-modernista Augusto dos Anjos (1844-1914), no livro Eu. Com ironia e genialidade, disse: ?Não! Jesus não morreu! Vive na serra da Borborema, no ar da minha terra, na molécula e no átomo... Resume a espiritualidade da matéria, e ele é que embala o corpo da miséria e faz da cloaca uma urna de perfume?.