Opinião
Arriete a intransitiva
Cada vez mais me convenço do quanto é lindo lermos um livro nele enxergando um ponto de luz, não somente a nos iluminar com o seu conteúdo como a nos encantar, convidando-nos a viver intensamente, porque justo neste instante ganhamos forças para agir e confiança para buscar inspiração, fortalecendo nossa sensação de estarmos no lugar e na hora certa, não apenas por nos conectarmos com o recentemente lido, mas principalmente por nos sentirmos uma nota musical valorizando uma bela canção. Dias atrás tive oportunidade de ler o livro Intransitiva Palavra, de autoria da laureada poetisa, minha colega da Academia Alagoana de Letras, Arriete Vilela, facilmente aprendendo como a criatividade pode dar algo à vida, iluminando-a e entregando ao mundo algo processado bem dentro do coração, transformando o silêncio em som constante e nos permitindo escutar a própria alma. Em um dos poemas ali impressos destaquei estas palavras: ?Antes, as brasas eram atiçadas e atravessavam as noites. Morríamos sem morrer, riamos o bom riso, esquecíamos no vinho. Agora, sem ti, as brasas estão a apagar-se, e as cinzas misturam-se às lágrimas. Argamassa para a saudade não encontrar as mais pequeninas fissuras que te trarão novamente a mim?, assimilando rapidamente ser Arriete acima de tudo uma poetisa privilegiada, detentora de inspiração divina, conseguindo, de forma abrangente, sensível e criativa encantar seus leitores. Se Eça de Queiroz um dia falou: ?A poesia não se inventou para cantar o amor?, Arriete, em seu mais recente livro, deixou claro a poética haver nascido pela necessidade de celebrar magnificamente os deuses, conservando na memória, pela sedução do escrito, os sentimentos de uma época perpetuando-as na eternidade e mantendo viva a chama que nos invoca algo especial. Em outro momento a encantadora escritora assim falou: ?Toco o teu amor mal urdido por querê-lo luxurioso, muito mais lâmina do que lago?, deixando claro ser a criatividade muito mais ebulição interna e não externa, oferecendo condições a quem a interpreta de concluir serem nossos sentimentos limites bem mais profundos e subjetivos do que possa imaginar nossa vã compreensão. É uma pena os homens não se medirem pelos poemas já lidos... Certamente eu seria bem melhor, pois, conversando com Arriete, analisando sua simplicidade pessoal, chego quase a não entender de onde vem tanta grandeza em seus textos, comprovando não se aprender nos livros a receita para composição de um poema. Lendo Arriete, sinto-me competente para cantar em verso e prosa o amor ou a tristeza, assim como o otimismo e o realismo. Seus escritos nos levam a num simples piscar de olhos vivenciar o calor, o abraço, o perfume, a lágrima, o sorriso, o escuro, a luz, o gentil cuidado ou o desinteresse, transformando tudo isto em rimas que calam na alma do leitor. Lê-la é decorar com imagens fortes o cenário da vida, a pintura da alma e as cores dos sentimentos mais variados porque ela é a Intransitiva Arriete.